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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sonetos de Florbela Espanca (1894 - 1930)

Foi uma poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo), onde nasceu em 1894, filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, sua empregada como criada de servir (como se dizia na época).

Morreu com apenas 36 anos, no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. Tendo a sua mãe falecido em 1908, e apesar de registada como filha de pai incógnito, foi educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira.


Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar.
Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se.
Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino.
Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas.
Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida.
Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade.
Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra.
Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras:
Charneca em Flor (1930),
Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930),
Juvenília (1930),
As Marcas do Destino (1931, contos),
Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e
Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito.
A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza. Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.
Sonetos de Florbela Espanca
Por ordem alfafética:

?
?!
À Guerra
À janela de Garcia de Resende
À morte
Às mães de Portugal
Árvores do Alentejo
A Anto !
A esta hora ...
A flor do sonho
Canção grata
Carta para longe
Chopin
Deixai entrar a Morte
Desdém
Divino instante
Doce certeza
Doce milagre
Duas quadras
Escrava
Escreve-Me
Escuta...
Hora que passa
Humildade
IX
Junquilhos ...
Lágrimas ocultas
Languidez
Mistério D`Amor
Nunca mais!
O espectro
Súplica
Triste passeio
Vão Orgulho

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sonetos de Luís Vaz de Camões (1524 - 1580)


Não é bem certa a data do seu nascimento, mas apontam-se como datas prováveis 1524 ou 1525, talvez em Lisboa ou em Coimbra, na altura em que morria Vasco da Gama (1524). Foram seus pais Simão Vaz de Camões, segundo neto do trovador galego Vasco Pires de Camões, e D. Ana de Sá e Macedo, da família dos Gamas do Algarve.

É frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e um dos maiores da Humanidade. O seu génio é comparável ao de Virgílio, Dante, Cervantes ou Shakespeare. Das suas obras, a epopéia Os Lusíadas é a mais significativa.
Entre 1542 e 1545, viveu em Lisboa, trocando os estudos pelo ambiente da corte de D. João III, conquistando fama de poeta e feitio altivo.


A sua formação académica decorreu provavelmente em Coimbra, onde o seu tio D. Bento de Camões era Chanceler da Universidade. Camões refere-se a ele na canção «Vão as serenas águas...». Não há registos da sua passagem por Coimbra.

Em 1548 é desterrado no Ribatejo. Em 1549 embarca para Ceuta onde perde o olho direito numa escaramuça contra os Mouros, ocorrência que relata na canção «Vinde cá, meu tão certo secretário...».
De regresso a Lisboa (1551), não tarda em retomar a vida boémia. São-lhe atribuídos vários amores, não só por damas da corte mas até pela própria irmã do Rei D. Manuel I. Teria caído em desgraça, a ponto de ser desterrado para Constância. Não há, porém, o menor fundamento documental de que tal fato tenha ocorrido. No dia de Corpus Christi de 1552 entra em rixa, e fere um certo Gonçalo Borges, funcionário da Cavalariça Real, sendo preso. É libertado por carta régia de perdão de 7 de Março de 1553, embarcando para a Índia na armada de Fernão Álvares Cabral, a 24 desse mesmo mês.

Depois Camões fixa-se em Goa onde escreveu grande parte da sua obra épica. Considerou a cidade como uma madrasta de todos os homens honestos. Lá estudou os costumes de cristãos e hindus, e a geografia e a história locais. Toma parte em mais expedições militares.

Em 1556 parte para Macau, onde continuou os seus escritos. Vive numa célebre gruta com o seu nome e por aí terá escrito boa parte d'Os Lusíadas. Naufragou na foz do rio Mekong, onde conservou de forma heróica o manuscrito de Os Lusíadas então já adiantados (cf. Lus., X, 128). No naufrágio teria morrido a sua companheira chinesa Dinamene, celebrada em série de sonetos. É possível que datem igualmente dessa época ou tenham nascido dessa dolorosa experiência as redondilhas Sôbolos rios.

Regressa a Goa antes de Agosto de 1560 e pede a protecção do Vice-rei D. Constantino de Bragança num longo poema em oitavas. Aprisionado por dívidas, dirige súplicas em verso ao novo Vice-rei, D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, para ser liberto. Em 1568, vem para a ilha de Moçambique, onde, passados dois anos, Diogo do Couto o encontrou, como relata na sua obra, acrescentando que o poeta estava "tão pobre que vivia de amigos". (Década 8.ª da Ásia). Trabalhava então na revisão de Os Lusíadas e na composição de "um Parnaso de Luís de Camões, com poesia, filosofia e outras ciências", obra roubada. Diogo do Couto pagou-lhe o resto da viagem até Lisboa, onde Camões aportou em 1570.
Faleceu em Lisboa no dia 10 de Junho de 1580 e foi sepultado a expensas de um amigo.
O seu túmulo, que teria sido na cerca do Convento de Sant'Ana, em Lisboa, perdeu-se com o terramoto de 1755, pelo que se ignora o paradeiro dos restos mortais do poeta, que não está sepultado em nenhum dos dois túmulos oficiais que hoje lhe são dedicados – um no Mosteiro dos Jerónimos e outro no Panteão Nacional.

A sua obra situa-se entre o Classicismo e o Maneirismo. Alguns dos seus sonetos, como o conhecido Amor é fogo que arde sem se ver, pela ousada utilização dos paradoxos, prenunciam já o Barroco que se aproximava.

Links de interesse:
Os Lusíadas - Análise - Texto integral

Sonetos (e poemas) de Luís Vaz de Camões
(ver TODOS)
Por ordem alfabética:

A chaga que, Senhora, me fizestes
A D. Leonis Pereira
A D. Luís de Ataíde, Viso-Rei
A D. Simão da Silveira

A fermosura desta fresca serra
À morte de D. António de Noronha
A Morte, que da vida o nó desata
À romana Populónia perguntava

À sepultura de D. Fernando de Castro
À sepultura del-Rei D. João III
A ti, Senhor, a quem as sacras Musas

A violeta mais bela que amanhece
Ah! imiga cruel, que apartamento
Ah, Fortuna cruel! Ah, duros Fados
Ah, minha Dinamene assi deixaste
Alegres campos, verdes arvoredos

Alma gentil, que à firme Eternidade
Alma minha gentil, que te partiste
Amor é fogo que arde sem se ver
Amor, co a esperança já perdida
Amor, que o gesto humano n' alma escreve

Apartava-se Nise de Montano
Apolo e as nove Musas, discantando
Aquela fera humana que enriquece

Aquela que, de pura castidade
Aquela triste e leda madrugada
Aqueles claros olhos que chorando

Bem sei, Amor, que é certo o que receio
Busque Amor novas artes, novo engenho

Cá nesta Babilónia, donde mana
Cantando estava um dia bem seguro
Cara minha inimiga, em cuja mão
Chorai, Ninfas, os fados poderosos
Coitado, que em um tempo choro e rio
Com grandes esperanças já cantei
Com que voz chorarei meu triste fado
Com voz desordenada, sem sentido
Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Como podes, ó cego pecador
Como quando do mar tempestuoso
Contente vivi já, vendo-me isento
Conversação doméstica afeiçoa
Correm turvas as águas deste rio
Crecei, desejo meu, pois que a Ventura
Criou a Natureza damas belas

Dai-me üa lei, Senhora, de querer-vos
De frescas belvederes rodeadas
De quantas graças tinha, a Natureza
De tão divino acento e voz humana
De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança
Debaixo desta pedra sepultada
Dece do Céu imenso, Deus benino

Deixando o doce fato e a cabana
Descalça vai para a fonte
Descalço e sem chapéu Apolo louro
Despois que quis Amor que eu só passasse
Despois que viu Cibele o corpo humano
Diana prateada, esclarecia
Ditosas almas, que ambas juntamente
Ditoso seja aquele que somente
Diversos dões reparte o Céu benino
Dizei, Senhora, da Beleza ideia
Doce contentamento já passado
Doce sonho, suave e soberano
Doces e claras águas do Mondego
Doces lembranças da passada glória
Dos Céus à terra dece a mor beleza
Dos ilustres antigos que deixaram

El vaso reluciente y cristalino
Em fermosa Leteia se confia
Em prisões baixas fui um tempo atado
Em um batel que com doce meneio
Endechas, a Bárbara escrava
En una selva al despuntar del dia
Enquanto Febo os montes acendia
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Esforço grande, igual ao pensamento
Está o lascivo e doce passarinho
Está-se a Primavera trasladando
Este amor que vos tenho, limpo e puro
Eu cantarei de amor tão docemente
Eu cantei já, e agora vou chorando
Eu vivia de lágrimas isento

Ferido sem ter cura perecia
Fermosos olhos que na idade nossa
Fiou-se o coração, de muito isento
Foi já um tempo doce cousa amar
Fortuna em mi guardando seu direito

Grão tempo há já que soube da Ventura

Ilustre e dino ramo dos Meneses
Indo o triste pastor todo embebido

Já a saudosa Aurora destoucava
Já claro vejo bem, já bem conheço
Já não sinto, Senhora, os desenganos
Já tempo foi que meus olhos folgavam
Julga-me a gente toda por perdido

Leda serenidade deleitosa
Lembranças saudosas, se cuidais
Lembranças, que lembrais meu bem passado
Lindo e sutil trançado, que ficaste

Males, que contra mi vos conjurastes
Memória de meu bem, cortado em flores
Memórias ofendidas que um só dia
Moradoras gentis e delicadas
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Na desesperação já repousava
Na metade do Céu subido ardia
Na ribeira do Eufrates assentado
Náiades, vós, que os rios habitais
Não passes, caminhante! Quem me chama?
Não vás ao monte, Nise, com teu gado
Nem o tremendo estrépito da guerra

No mundo quis um tempo que se achasse
No mundo, poucos anos e cansados
No tempo que de Amor viver soía
Nos braços de um Silvano adormecendo
Num bosque que das Ninfas se habitava

Num jardim adornado de verdura
Num tão alto lugar, de tanto preço
Nunca em amor danou o atrevimento

O céu, a terra, o vento sossegado
O cisne, quando sente ser chegada
O culto divinal se celebrava
O dia em que eu nasci, morra e pereça
O filho de Latona esclarecido
O fogo que na branda cera ardia
Ó gloriosa cruz, ó vitorioso
O raio cristalino se estendia
O tempo acaba o ano, o mês e a hora
Oh! quão caro me custa o entender-te
Oh, como se me alonga, de ano em ano
Olhos fermosos, em quem quis Natura
Ondados fios de ouro reluzente
Onde acharei lugar tão apartado
Onde mereci eu tal pensamento
Orfeu enamorado que tañía
Ornou mui raro esforço ao grande Atlante
Os reinos e os impérios poderosos
Os vestidos Elisa revolvia

Para se namorar do que criou
Passo por meus trabalhos tão isento
Pede o desejo, Dama, que vos veja
Pelos extremos raros que mostrou
Pensamentos, que agora novamente
Pois meus olhos não cansam de chorar
Por cima destas águas, forte e firme
Por sua Ninfa, Céfalo deixava
Porque a tamanhas penas se oferece
Porque quereis, Senhora, que ofereça
Posto me tem fortuna em tal estado
Presença bela, angélica figura
Pues lágrimas tratáis, mis ojos tristes

Qual tem a borboleta por costume
Quando a suprema dor muito me aperta
Quando cuido no tempo que, contente
Quando da bela vista e doce riso
Quando de minhas mágoas a comprida
Quando me quer enganar
Quando o Sol encoberto vai mostrando
Quando se vir com água o fogo arder
Quando vejo que meu destino ordena
Quando, Senhora, quis Amor que amasse
Quanta incerta esperança, quanto engano!
Quantas vezes do fuso se esquecia
Que gritos são os que ouço? – De tristeza
Que levas, cruel Morte? Um claro dia

Que me quereis, perpétuas saudades?
Que modo tão sutil da Natureza
Que pode já fazer minha ventura
Que poderei do mundo já querer
Quem diz que Amor é falso ou enganoso
Quem fosse acompanhando juntamente
Quem pode livre ser, gentil Senhora
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos

Quem pudera julgar de vós, Senhora
Quem quiser ver d' Amor üa excelência
Quem vê, Senhora, claro e manifesto
Quem vos levou de mi, saudoso estado

Razão é já que minha confiança


Se a Fortuna inquieta e mal olhada
Se a ninguém tratais com desamor
Se algüa hora em vós a piedade
Se as penas com que Amor tão mal me trata
Se com desprezos, Ninfa, te parece
Se cuidasse que nesse peito isento
Se de vosso fermoso e lindo gesto

Se em mi, ó Alma, vive mais lembrança
Se lágrimas choradas de verdade
Se me vem tanta glória só de olhar-te
Se os capitães antigos colocados
Se pena por amar-vos se merece
Se tanta pena tenho merecida

Se tomar minha pena em penitência
Se, despois de esperança tão perdida
Seguia aquele fogo, que o guiava
Sempre a Razão vencida foi de Amor
Sempre, cruel Senhora, receei
Senhor João Lopes, o meu baixo estado
Senhora já dest' alma, perdoai
Senhora minha, se a Fortuna imiga
Senhora minha, se de pura inveja
Sentindo-se tomada a bela esposa
Sete anos de pastor Jacob servia
Suspiros inflamados, que cantais
Sustenta meu viver üa esperança

Tal mostra dá de si vossa figura
Tanto de meu estado me acho incerto
Todas as almas tristes se mostravam
Todo o animal da calma repousava
Tomava Daliana por vingança
Tomou-me vossa vista soberana
Tornai essa brancura à alva açucena
Transforma-se o amador na cousa amada

Üa admirável erva se conhece
Um mover de olhos, brando e piadoso


Vai-me gastando Amor e um pensamento
Vencido está de Amor meu pensamento
Verdade, Amor, Razão, Merecimento

Verdes são os campos
Vós outros, que buscais repouso certo

Vós que, de olhos suaves e serenos
Vossos olhos, Senhora, que competem



Este texto é publicado com base na licença GNU, e foi baseado em alguns artigos da Wikipédia.

domingo, 27 de maio de 2007

Antero de Quental (1842 - 1891)


Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel - Açores, no dia 18 de Abril de 1842.

Em 1852, com 13 anos, vem com a sua mãe, para Lisboa.

Desde jovem que se destacou pelas opiniões revolucionárias e pela forma de estar na vida.
Lutador e muito congruente com os seus ideais socialistas.

Antero de Quental espalhou saber pela poesia, filosofia e política.

Em Julho de 1858 matriculou-se na Faculdade de Direito, de Coimbra, onde brilhou como líder estudantil. Concluiu o curso em Julho de 1864.

Em 1865, foi um dos principais envolvidos na polémica conhecida por Questão Coimbrã, em que humilhou António Feliciano de Castilho, seu antigo professor e crítico literário.
A polémica só terminou com um duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão travado, a 6 de Fevereiro de 1866, no Jardim de Arca d'Água, no Porto, que se saldou por ferimentos ligeiros.

Ainda em 1866 foi viver em Lisboa, onde experimentou a vida de operário, trabalhando como tipógrafo. Uma profissão que exerceu também em Paris, em Janeiro e Fevereiro de 1867. Em 1868 regressou a Lisboa, onde formou o Cenáculo, de que fizeram parte, entre outros, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.


Foi o guia espiritual da geração de 70, um agitador político a “tempo inteiro”, que se afirmou pelo desejo de intervenção e renovação da vida política e cultural portuguesa.


Em 1874 adoeceu de psicose maníaco-depressiva (doença bipolar), que desde então o afligiu. Foi convidado pelo Partido Republicano para candidatar-se como deputado, mas teve de recusar.

Antero de Quental herdou em 1873 uma quantia considerável de dinheiro, o que lhe permitiu viver desafogadamente, dos rendimentos dessa fortuna.

Em 1890, devido à reacção nacional contra o ultimato inglês, de 11 de Janeiro, aceita presidir à Liga Patriótica do Norte, mas a existência da Liga é efémera.
Quando regressou a Lisboa, em Maio de 1891, instalou-se em casa da irmã, Ana de Quental. Neste momento o seu estado de depressão era permanente. Passado um mês, em Junho de 1891, regressa a Ponta Delgada, acabando por suicidar-se dia 11 de Setembro de 1891, com um tiro na cabeça, disparado num banco de jardim.

Para Antero de Quental, os ideais da fraternidade e solidariedade não poderiam ser em vão. Foi dos primeiros a trazer o socialismo, o republicanismo e o marxismo para a discussão pública.

A SUA OBRA

A poesia de Antero de Quental apresenta três faces distintas:

A das experiências juvenis, em que coexistem diversas tendências
A da poesia militante, empenhada em agir como “voz da revolução”
E a da poesia de tom metafísico, voltada para a expressão da angustia de quem busca um sentido para a existência.

A oscilação entre uma poesia de combate, dedicada ao elogio da acção e da capacidade humana, e uma poesia intimista, direcionada para a análise de uma individualidade angustiada, parece ter sido constante na obra madura de Antero de Quental.


OS SONETOS

Antero de Quental atinge um bom grau de elaboração nos seus sonetos, que são considerados dos melhores da língua portuguesa e comparados aos de Camões e aos de Bocage.

Há, na verdade, alguns pontos comuns (estilísticos e temáticos) entre estes três poetas:

Os sonetos de Antero de Quental têm um inegável sabor clássico, quer na adjectivação e na sua musicalidade equilibrada, quer na análise das questões universais que afligem o homem.



Sonetos de Antero de Quental

À virgem santíssima
Abnegação
Acordando
Ad Amicos
A fada negra
A idéia
A João de Deus
Amaritudo
Amor Vivo
Anima Mea
Aparição
A Santos Valente
Aspiração
A Sulamisa
A uma mulher
A um crucifixo
A um poeta
Com os mortos
Comunhão
Consulta
Contemplação
Das Unnennbare
Desesperança
Despondency
Diálogo
Disputa em família
Divina Comédia

Elogio da morte
Em viagem
Enquanto outros combatem
Entre Sombras
Espectros
Espiritualismo
Estoicismo
Evolução
Hino à razão
Hino da manhã
Homo
Ideal
Idílio

Ignoto Deo
Ignotus
Jura
Justitia Mater
Mais luz !
Lacrimae Rerum
Lamento
Logos
Luta
Mãe
Mea culpa
Metempsicose
Mors-Amor
Mors Liberatrix
Na capela
Na mão de Deus
Não me fales de glória: é outro o altar
Não busco n`esta vida glória ou fama
Nirvana
No céu, se existe um céu para quem chora
No circo
No turbilhão
Noturno

Nox
Oceano Nox
O convertido
O inconsciente
O palácio da ventura
Os captivos
O que diz a morte
Os vencidos
Palavras dum certo morto
Pequenina
Porque descrês, mulher, do amor, da vida
Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa
Psalmo
Quia aeternus
Quinze anos
Redenção
Se comparo poder ou ouro ou fama
Se é lei, que rege o escuro pensamento
Sempre o futuro, sempre ! E o presente
Sepultura romântica
Só ! - Ao ermita sozinho na montanha
Solemnia Verba
Só males são reais, só dor existe
Sonho
Sonho Oriental
Tese e antítese
Tormento do ideal
Transcendentalismo
Uma amiga
Velut Umbra
Visão
Visita
Voz do Outono
Voz interior

Este artigo publica-se sob a licença GNU, baseado num artigo da Wikipédia (adaptado).

sábado, 13 de maio de 2006

Fernando Pessoa (1888 - 1935)





Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; Escrito entre 1913-15; Publicado em Atena nº 5, Fevereiro de 1925




Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888 e faleceu na mesma cidade, no dia 30 de Novembro de 1935. Ficou conhecido como Fernando Pessoa e foi um dos maiores poetas de língua portuguesa.
A gradiosidade da sua obra é comparada com a de Luís Vaz de Camões.

O crítico literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX.
Por ter vivido a maior parte de sua juventude na África do Sul, a língua inglesa também possui algum destaque na sua vida. Fernando Pessoa recorreu a essa língua, para estudar, trabalhar, traduzir e escrever.

Teve uma vida discreta, trabalhando em áreas como o jornalismo, a publicidade, o comércio e, principalmente, a literatura, onde se desdobrou em várias outras personalidades conhecidas como heterónimos.
A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do facto de ser o maior autor da heteronímia.

Morreu de problemas hepáticos aos 47 anos na mesma cidade onde nascera. A sua última frase terá sido escrita na língua inglesa, com toda a simplicidade que a liberdade poética sempre lhe concedeu:
"I know not what tomorrow will bring... " ("Eu não sei o que o amanhã trará").




Os seus heterónimos

Álvaro de Campos



Entre todos os heterónimos, Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo de sua obra.
Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo.

Começa sua trajectória como um decadentista (influenciado pelo Simbolismo), mas logo adere ao Futurismo.



Após uma série de desilusões com a existência, assume uma veia niilista, expressa naquele que é considerado um dos poemas mais conhecidos e influentes da língua portuguesa, Tabacaria.

Ricardo Reis

O heterónimo Ricardo Reis é descrito como sendo um médico que se definia como latinista e monárquico.

De certa maneira, simboliza a herança clássica na literatura ocidental, expressa na simetria, harmonia, um certo bucolismo, com elementos epicuristas e estóicos. O fim inexorável de todos os seres vivos é uma constante em sua obra, clássica, depurada e disciplinada.

Segundo Pessoa, Reis mudou-se para o Brasil em protesto à proclamação da República em Portugal e não se sabe o ano de sua morte.

José Saramago, em O ano da morte de Ricardo Reis continua, numa perspectiva pessoal, o universo deste heterónimo, após a morte de Fernando Pessoa, cujo fantasma estabelece um diálogo com o seu heterónimo, sobrevivente ao criador.


Alberto Caeiro

Caeiro, por seu lado, nascido em Lisboa teria vivido quase toda a vida como camponês, quase sem estudos formais, teve apenas a instrução primária, mas é considerado o mestre entre os heterónimos (pelo ortónimo, inclusive).

Morreram-lhe o pai e a mãe, e ele deixou-se ficar em casa com uma tia-avó, vivendo de modestos rendimentos. Morreu de tuberculose.

Também é conhecido como o poeta-filósofo, mas rejeitava este título e pregava uma "não-filosofia". Acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se com a metafísica e qualquer tipo de simbologia para a vida.

Dos principais heterónimos de Fernando Pessoa, Caeiro foi o único a não escrever em prosa. Alegava que somente a poesia seria capaz de dar conta da realidade.
Possuía uma linguagem estética direta, concreta e simples, mas ainda assim, bastante complexa do ponto de vista reflexivo.

A sua ideologia resume-se no verso:
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

A sua obra está agrupada na colectânea: Poemas Completos de Alberto Caeiro.



Bernardo Soares

É o autor do Livro do Desassossego, escrito em forma de fragmentos.

Apesar de fragmentário, o livro é considerado uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no séc. XX, ao encenar na linguagem categorias várias que vão desde o pragmatismo da condição humana até o absurdo da própria literatura.
Bernardo Soares é, dentro da ficção de seu próprio livro, um simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. É considerado um semi-heterónimo porque, como seu próprio criador explica "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."

Sonetos de Fernando Pessoa
ou dos seus heterónimos...


Aconteceu-me do alto do infinito
A Daisy Manson (ver soneto)
Adagas cujas jóias velhas galas...
Ah, mas aqui, onde irreais erramos
Ah, um soneto
(ver soneto)
A minha vida é um barco abandonado
A Praça (ver soneto)
As tuas mãos terminam em segredo
Autopsicografia (ver soneto)
Barrow on Furness (ver soneto)
Durmo ou não ? Passam juntas em minha alma (ver soneto)
Meu coração tardou (ver soneto)

Nas grandes horas em que a insónia avulta (ver soneto)
Olhando o mar, sonho sem ter de quê (ver soneto)
Se penso mais que um momento (ver soneto)
Soneto a Raúl de Campos (ver soneto)
Sonho (ver soneto)
Tinha o Trono onde ter uma rainha (ver soneto)

Todos os sonetos apresentados, possuem direitos de autor, e servem fins educativos.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Manuel Maria Du Bocage (1765 - 1805)



"Magro, de olhos azuis, carão moreno",
como o poeta se auto-retratou
e como o pintor (Elói) o viu
(Câmara Municipal de Setúbal)








Manuel Maria Barbosa du Bocage nascido em Setúbal às três horas da tarde de 15 de Setembro de 1765, neto de um Almirante francês que viera organizar a nossa marinha, filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, que foi juiz de fora, ouvidor, e depois advogado e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária, que um ambiente familiar propício incentivou.

Sua mãe era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Marie Anne Le Page du Bocage, tradutora do Paraíso de Milton, imitadora da Morte de Abel, de Gessner, e autora da tragédia As Amazonas e do poema épico em dez cantos A Columbiada, que lhe mereceu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro prémio da academia de Rouen.

Apesar das inúmeras biografias publicadas após a sua morte, uma boa parte da sua vida permanece um mistério. Não sabemos que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é muito duvidosa e discutível.

Aos 16 anos assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal e aos 18 alistou-se na Marinha, tendo feito o seu tirocínio em Lisboa e embarcado, posteriormente, para Goa, na qualidade de oficial.

Em 14 de Abril de 1786, embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, que fez escala no Rio de Janeiro (finais de Junho) e na Ilha de Moçambique (início de Setembro) e chegou à Índia em 28 de Outubro de 1786. A sua estadia neste território caracterizou-se por uma profunda desadaptação. Com efeito, o clima insalubre, a vaidade e a estreiteza cultural que aí observou, conduziram a um descontentamento que retratou em alguns sonetos de carácter satírico.Em Pangim, frequentou de novo estudos regulares de oficial de marinha. Foi depois colocado em Damão, mas desertou, embarcando para Macau. Estranhamente, não foi punido e deverá ter regressado a Lisboa em meados de 1790.

Na capital, vivenciou a boémia lisboeta, frequentou os cafés que alimentavam as ideias da revolução francesa, satirizou a sociedade estagnada portuguesa, desbaratou, por vezes, o seu imenso talento.

Em 1791, publicou o seu primeiro tomo das Rimas, ao qual se seguiram ainda dois, respectivamente em 1798 e em 1804. No início da década de noventa, aderiu à "Nova Arcádia", uma associação literária, controlada por Pina Manique, que metodicamente fez implodir. Efectivamente, os seus conflitos com os poetas que a constituíam tornaram-se frequentes, sendo visíveis em inúmeros poemas cáusticos.

Em 1797, Bocage foi preso por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".
Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado". Naquele ano foi finalmente libertado.

Em 1800, iniciou a sua tarefa de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, auferindo 12.800 réis mensalmente.

A partir de 1801, até à morte por aneurisma, viveu em casa por ele arrendada no Bairro Alto, naquela que é hoje o nº 25 da travessa André Valente.

A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara. Em 1805, com 40 anos, faleceu na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral. Foi sepultado na Igreja das Mercês.


Sonetos de Manuel Maria du Bocage
(ver TODOS)

A frouxidão no amor é uma ofensa (ver soneto)
Deixar, amado bem, teu lindo rosto (ver soneto)
Há pouco a mãe das graças, dos Amores (ver soneto)
Nascemos para amar (ver soneto)
O ledo passarinho que gorjeia (ver soneto)
Ó tranças de que Amor prisões me tece (ver soneto)
Os suaves eflúvios,que respira (ver soneto)
Soneto 9 (ver soneto)
Soneto 15 (ver poema)
Soneto 17 (ver soneto)
Soneto 30 (ver soneto)
Soneto 33 (ver soneto)
Soneto 37 (ver soneto)
Soneto 144 (ver soneto)
Temo que minha ausência e desventura (ver soneto)


Principais fontes consultadas para o texto:
http: //atelier.hannover2000.mct.pt/~pr349
http: //purl.pt/1276/1/cronologia.html
http: //pt.wikipedia.org/wiki/Bocage