Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.
Manuel Maria du Bocage
Auto-retrato, na sua versão original. Na versão publicada em vida do poeta (1804), os versos 11 e 14 são: "E somente no altar amando os frades" e "Num dia em que se achou mais pachorrento".
domingo, 19 de outubro de 2008
Magro, de olhos azuis, carão moreno
domingo, 11 de maio de 2008
Nascemos para amar
Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formusura,
Que encanta, que seduz, que persuade.
Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.
Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.
Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.
Bocage in «Obra Poética», por Carlos Nogueira, 1997
terça-feira, 22 de abril de 2008
Soneto 33
Olha, Marilia, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?
Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes;
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores;
Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares, sussurrando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira
Mais tristeza que a noite me causara.
Bocage in «Obra Completa Volume I - Sonetos»
sexta-feira, 21 de março de 2008
Os suaves eflúvios, que respira
Os suaves eflúvios, que respira
A flor de Vênus, a melhor das flores,
Exalas de teus lábios tentadores,
Oh doce, oh bela, oh desejada Elmira;
A que nasceu das ondas, se te vira,
A seu pesar cantara os teus louvores;
Ditoso quem por ti morre de amores!
Ditoso quem por ti, meu bem, suspira!
E mil vezes ditoso o que merece
Um teu furtivo olhar, um teu sorriso,
Por quem da mãe formosa Amor se esquece!
O sacrílego ateu, sem lei, sem siso,
Contemple-te uma vez, que então conhece
Que é força haver um Deus, e um paraíso.
Bocage
sábado, 1 de março de 2008
Soneto 37
A teus pés, meu bem, rendido,
Confirmo os votos que a traição manchara,
Fumam de novo incensos sobre a ara,
Que a vil ingratidão tinha abatido.
De novo sobre as asas de um gemido
Te of'reço o coração, que te agravara;
Saudoso torno a ti, qual torna à cara,
Perdida Pétria o mísero banido;
Removemos o nó, por mim desfeito,
Que eu já maldigo o tempo desgraçado,
Em que a teus olhos não vivi sujeito;
Concede-me outra vez o antigo agrado;
Que mais queres? Eu choro, e no meu peito
o punhal do remorso está cravado.
Bocage in «Obra Completa - Vol. I Sonetos»
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Soneto 30
Marília, se em teus olhos atentara
Do esterífero sólio reluzente,
Ao vil mundo outra vez o omnipotente,
O fulminante Júpiter baixara.
Se o Deus, que assanha as Fúrias, te avistara
As mãos de neve, o colo transparente,
Suspirando por ti, o caos ardente
Surgira à luz do dia e te roubara.
Se ao ver-te de mais perto o sol descera,
No áureo carro veloz dando-te assento,
Até da esquiva Dafne se esquecera.
E, se a força igualasse o pensamento,
Ó alma da minha alma, eu te of'recera
Com ela a terra, o Mar e o Firmamento.
Bocage in «Obra Completa Volume I - Sonetos», Ed. Caixotim
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
A frouxidão no amor é uma ofensa
A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.
Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.
Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.
Bocage
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Soneto 15
Não, Marília, teu gesto vergonhoso,
A luz dos olhos teus serena e pura,
teu riso, que enche as almas de ternura,
Agora meigo, agora desdenhoso;
Tua cândida mão, teu pé mimoso,
Tuas mil perfeições crer que a Ventura
As guarda para mim, fora loucura:
Nem sou digno de ti, nem sou ditoso;
E que mortal, enfim, que peito humano
Merece os braços teus, ó ninfa amada?
Que Narciso? Que herói? Que soberano?
Mas que lê minha mente iluminada!...
Céus!... Penetro o futuro!...Ah! Não me engano:
De Jove para o toro estás guardada.
Bocage in «Obra Completa Volume I - Sonetos», Ed. Caixotim
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Soneto 17
Marília, nos teu olhos buliçososos
Amores gentis seu facho acendem,
A teus lábios voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.
Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem,
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.
Reside em teus dedos a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura;
És dos céus o composto mais brilhante:
Deram-se as mãos Virtude e Formosura
Para criar tua alma e teu semblante.
Bocage in «Obra Completa Volume I - Sonetos», Ed. Caixotim
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Soneto 9
Voa a Lília gentil meu pensamento
Nas asas de esperanças sequiosas;
Amor, à frente de ilusões ditosas,
O chama e lhe acelera o movimento.
Ígneo desejo audaz, que em mim sustento,
Mancha o puro candor das mãos mimosas,
Os olhos cor dos céus, a tez de rosas,
E o mais, onde a ventura é um momento.
Eis que pesada voz, terrível grito
Soa em minha alma, o coração me oprime,
E austero me recorda a lei e o rito.
Devo abafar-te, amor, paixão sublime?
Ah! Se amar como eu amo é um delito
Lília formosa aformoseia o crime.
Bocage in «Obra Completa Volume I - Sonetos», Ed. Caixotim
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Deixar, amado bem, teu rosto lindo
Deixar, amado bem, teu rosto lindo,
Teus afagos deixar, tua candura,
Tanto me oprime que da Morte escura
Sobre mim negras sombras vêm caindo.
Eu parto, e vou teu nome repetindo,
Porque dê desafogo à mágoa dura;
Meus tristes ais, suspiros de amargura
Áquem dos mares ficarás ouvindo.
Mas se me cercam no cruel transporte
Quantas fúrias o Báratro vomita,
Se meu mal é pior que a mesma morte,
O Fado em me aterrar em vão cogita!
Com todo o seu poder não pode a Sorte
Tua imagem riscar desta alma aflita.
Bocage in «Obra Completa - vol. I Sonetos»
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Soneto 144
Debalde um céu cioso, ó Nise, encobre
Intactas perfeições ao meu desejo;
Tudo o que me escondes, tudo o que eu não vejo,
A mente audaz e alígera* descobre.
Por mais, e mais que as sentinelas dobre
A sisuda Modéstia, o sério Pejo,
Teus braços logro, teus encantos beijo
Por milagres da ideia afoita e nobre.
Inda que prémio teu rigor me negue,
Do pensamento a indómita porfia
Ao mais doce prazer me deixa entregue:
Que pode contra Amor a tirania,
Se as delícias, que a vista não consegue,
Consegue a temerária fantasia?
*ligeira
Bocage in «Obra Completa- Volume I - Sonetos», Ed. Caixotim
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Há pouco a mãe das Graças, dos Amores
Há pouco a mãe das Graças, dos Amores,
Gerada pela espuma cristalina,
Baixou da etérea região divina
Nas asas dos Favónios voadores:
"Oh das margens do Tejo habitadores!
hoje torna a luzir ( disse Ericina )
o ledo instante em que nasceu Marina,
Ínclito fruto de ínclitos maiores:
Do Céu, do Mar, da Terra, os soberanos
Imprimindo-lhe encantos a milhares,
Criaram nela a glória dos humanos:
Eia, cantai-lhe os dotes singulares,
Louvai seus olhos, aplaudi seus anos,
Queimai-lhe aromas, erigi-lhe altares
Bocage
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Soneto anticlerical
Se quereis, bom Monarca, ter soldados
Para compor lustrosos regimentos,
Mandai desentulhar esses conventos
Em favor da preguiça edificados:
Nos Bernardos lambões, e asselvajados
Achareis mil guerreiros corpulentos;
Nos Vicentes, nos Neris, e nos Bentos
Outros tantos, não menos esforçados:
Tudo extingui, senhor: fiquem somente
Os Franciscanos, Loios, e Torneiros,
Do Centimano aspérrima semente:
Existam estes lobos carniceiros,
Para não arruinar inteiramente
Putas, pívias, cações, e alcoviteiros.
Manuel Maria du Bocage
Outro soneto ao França
Rapada, amarelenta, cabeleira,
Vesgos olhos, que o chá, e o doce engoda,
Boca, que à parte esquerda se acomoda,
(Uns afirmam que fede, outros que cheira):
Japona, que da ladra andou na feira;
Ferrugento faim, que já foi moda
No tempo em que Albuquerque fez a poda
Ao soberbo Hidalcão com mão guerreira:
Ruço calção, que esporra no joelho
Meia e sapato, com que ao lodo avança,
Vindo a encontrar-se c'o esburgalhado artelho:
Jarra, com apetites de criança;
Cara com semelhança de besbelho;
Eis o bedel do Pindo, o doutor França.
Manuel Maria du Bocage
Incultas produções da mocidade
Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores.
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade e não louvores.
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores.
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.
Manuel Maria du Bocage
De cerúleo gabão não bem coberto
De cerúleo gabão não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto;
Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso.
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto.
Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes.
Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto: é o Bocage!
Manuel Maria du Bocage
Convite a Marília
Já se afestou de nós o inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
Afértil primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste:
Varrendo os ares o sutilnordeste
Os torna azuis; as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste:
Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza
Destas copadas árvores o abrigo:
Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!
Manuel Maria du Bocage
Chorosos versos meus desentoados
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.
Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.
Manuel Maria du Bocage
A Ulina
Da miseranda Inês o caso triste
Nos tristes sons, que a mágoa desafina,
Envia o terno Elmano à terna Ulina,
Em cujos olhos seu prazer consiste.
Paixão, que, se a sentir, não lhe resiste
Nem nos brutos sertões alma ferina,
Beleza funestou quase divina,
De que a memória em lágrimas existe.
Lê, suspira, meu bem, vendo um composto
De raras perfeições aniquilado
Por mãos do Crime, à Natureza oposto.
Tu és cópia de Inês, encanto amado;
Tu tens seu coração, tu tens seu rosto...
Ah!, defendam-te os Céus de ter seu fado!
Manuel Maria du Bocage