terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Soneto de Natal

Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Lua solitária, que daqui te vejo

Lua cheia que me olhas solitária, ao fundo do horizonte

Lua solitária, que daqui te vejo,
Essa tua expressão, triste e pensativa,
Parece-me que necessitas de um beijo,
Para me olhares, mais convidativa.

O que pensas, não posso tão pouco saber,
Fazes-me companhia nesta solidão,
Procuro em ti, a minha razão de ser,
Pessoa pareces, tal a sofreguidão.

Meu desassossego tu partilhas comigo,
Sabiamente acalmas o meu coração,
Como se também pudesses comunicar !

Não te escondes deste teu novo amigo,
Que a tua presença não seja em vão,
O meu caminho possas tu iluminar !

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original pode ser encontrado aqui.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Quando a morte nos espreita

Em certo dia, quando por razão médica,
Por entre as brumas, a morte nos espreita,
De rompante, sem nenhuma causa suspeita,
O coração bate e o cérebro suplica. Quando a morte nos espreita

Então, talvez subitamente preparados,
Invade o corpo uma estranha calma,
Que estranhamente se apodera da alma,
Seguiremos os nossos destinos traçados.

Se por feliz acaso, ela se vai embora,
Nosso mundo não voltará a ser igual,
Com outros olhos, tudo iremos sorver.

Serenos, valorizamos a vida, agora !
Cada segundo será sensacional,
Porque sentimos a alegria de viver !

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original foi retirado
aqui.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sentado observo as tuas longas labaredas

Fogo de longas labaredas, com as tuas afiadas línguas que lambem a madeira Sentado observo as tuas longas labaredas,
Afiadas línguas que lambem a madeira,
Por entre os troncos, inventas novas veredas,
Crepitas lentamente dentro da lareira.

Tudo vais reduzir a cinzas, aos poucos,
De uma forma certeira e implacável.
Os meus receios poderás consumir,
Nessa longa tarefa interminável.

Tua luz ilumina meus pensamentos,
Um confortável calor que aquece a minha alma,
Em ténues memórias eu me deixo levar.

Não te compadeces com os meus lamentos,
Continuas, com sabedoria e calma,
Até que em cinzas tudo possa ficar.

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original, encontra-se aqui.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Pensamentos turvos, de um futuro incerto

Névoa sobre o mar. O desespero de um olhar que procura em vão a esperança por entre a bruma

Nos dias em que me sento, olhando o mar,
A vida passa célere à minha frente.
Todas as batalhas que tive que travar,
Vitórias e derrotas gravadas na mente.

Uma densa névoa ao fundo, no horizonte,
Meus pensamentos turvos, de um futuro incerto,
Um olhar vazio, o corpo dormente,
Um peso tal, que só com a morte liberto.

Na espuma do mar, afoga-se a esperança,
Revivo momentos felizes de criança,
A seiva da vida esvai-se lentamente.

De sonhos perdidos, em estado latente,
Sinto-me sem forças para outra vez lutar,
Qual náufrago, que exausto pára de nadar.

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original encontra-se aqui.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A verdade aparente

mundo virtual Nesta confusa moderna sociedade,
As aparências sobrepõem-se às regras,
A mentira prevalece sobre a verdade,
O que consegues ver, não é o que esperas.

Os teus bens materiais são alicerces,
Como se vivesses num mundo virtual.
Tão envolvido estarás, que até te esqueces,
Que estás rodeado por um mundo real.

Os teus objectivos estão limitados,
Os pensamentos são ligeiros, descartáveis.
A palavra perde a força e o seu sentido.

Os grandes valores parecem condenados !
Serão os teus sentimentos insondáveis,
Estará o verdadeiro amor perdido ?

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original pode encontrar-se aqui.

domingo, 16 de novembro de 2008

Com grandes esperanças já cantei

Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
despois vim a chorar, porque cantara;
e agora choro já, porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa-me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas, que passara,
tenho pola mor mágoa, que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n'alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente!

Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Amor, é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sempre a Razão vencida foi de Amor

Sempre a Razão vencida foi de Amor;
mas, porque assi o pedia o coração,
quis Amor ser vencido da razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração:
que perde suas forças a afeição,
por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
mas antes muito mais se esforça assim
um contrário com outro, por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
não creio que é razão; mas há-de ser
inclinação que eu tenho contra mim.

Luís Vaz de Camões

domingo, 9 de novembro de 2008

Vossos olhos, Senhora, que competem

Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.

Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.

Mas se nisto me vedes, por acerto,
o áspero desprezo, com que olhais,
torna a espertar a alma enfraquecida.

Ó gentil cura e estranho desconcerto!
Que fará o favor que vós não dais,
quando o vosso desprezo torna a vida?

Luís Vaz de Camões

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Mundo interior

Fecho-me no meu mundo, para me protejer de toda a dor e sofrimentoFicou o mundo para mim, ensurdecedor,
Não suportarei mais alguém me magoar !
Afogado no meu sofrimento e dor,
Poderei proteger-me, se me isolar.

Para todo o sempre, fecho-me no meu mundo,
Não mais eu comunicarei com alguém.
Ficarei escondido no canto mais fundo !
O que me importa que me olhem com desdém...

Assim protegido, terei força e coragem,
Defender-me-ei de todas as agressões,
Considerar-me um fraco, não voltarão.

Fechado no meu cérebro, fico à margem,
Um caminho livre, sem mais confusões,
Estou livre como nunca, na minha prisão !

2008 Vasco de Sousa

Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original encontra-se aqui.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O grito da morte (II)

O desespero de uma morte terrível, dolorosa e anunciada Louco, grito agora em fúria, aterrorizado !
Sabendo que partiu uma grande paixão.
Em mágoa e dor me vejo agora afogado,
Sinto uma faca cortante no coração.

Demente grito em grande e louca aflição !
Gélida face de horror, irreconhecível.
Aos poucos pára de bater o coração,
Numa interminável agonia terrível !

E vencido, caio finalmente por terra,
Perdido nesta solidão que me aterra,
Para que não mais me volte a levantar !

Eu sei que ouviste este meu grito da morte !
Ó mulher, a paixão de minha pouca sorte !
Que me deixaste aqui para sempre a gritar...

2008 Vasco de Sousa
(adaptação de uma versão original de 1991)
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original foi retirado aqui.

O meu Mundo de cristal

O meu frágil mundo de cristal Naquele dia, quando de mim te afastaste,
O meu mundo partiu-se tal como um cristal.
Dia após dia, numa procura constante,
Procuro eu, mas em vão, razão que explique tal.

Nada disseste, nem uma carta deixaste,
Foi tudo uma surpresa completa para mim.
Fria e indiferente, tu então partiste,
Deixando-me aqui numa angústia sem fim.

Não irás fazer tu com que páre o meu mundo !
Pois sinto-me de consciência tranquila.
O meu destino traçado irei seguir.

Não entrarei por esse buraco profundo,
Não me afogarei em Whisky e Tequila.
Do meu destino, não me farás desistir.

2008 Vasco de Sousa

Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original pode ser encontrado (e comprado...) aqui.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Meu Portugal

Meu Portugal querido,minha terra
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti,esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações !

Tens o fado. A Canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra onde mora !

Tu tens também a embriaguês suave
Dos campos, da pisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente…

Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais fescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue !… Às vezes, penso

Que tu és, Pátria minha,branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo,ó Pátria amada
A beleza eterna, a arte, a poesia !…

Florbela Espanca in Trocando Olhares (1916)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Versos

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.

Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…

Florbela Espanca in Trocando Olhares (1916)

domingo, 19 de outubro de 2008

Magro, de olhos azuis, carão moreno

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

Manuel Maria du Bocage
Auto-retrato, na sua versão original. Na versão publicada em vida do poeta (1804), os versos 11 e 14 são: "E somente no altar amando os frades" e "Num dia em que se achou mais pachorrento".

sábado, 18 de outubro de 2008

Entre Sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
— A noite desce, desfolhando as rosas
—Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visão, com azas de setim...

Pousa de leve a delicada mão
— Rescende amena a noite socegada
—Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração...

E diz-me essa visão compadecida
— Ha suspiros no espaço vaporoso
—Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços
— Na noite funda ha um silencio santo
—N'um sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços...

Porque eu habito a região distante
— A noite exhala uma doçura infinda
—Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante...

Habito ali, e tu virás commigo
— Palpita a noite n'um clarão que offusca
—Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo...

Assim me fala essa visão nocturna
— No vago espaço ha vozes dolorosas
—São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna...

Mas eu escuto-a immovel, somnolento
— A noite verte um desconsolo immenso
—Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento...

Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto
— A noite é erma como campa enorme
—Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

Antero de Quental

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Viagem pelo Universo

Uma viagem fantástica pelo Universo Amanhã vou embarcar numa viagem,
Na minha reluzente nave espacial,
Parto com destino a uma miragem,
Nesta minha grande demanda irreal.

Seguirei até ao fim do Universo,
Visitarei as estrelas e planetas,
Tudo o que no espaço se encontra disperso,
Os corpos pequenos e as grandes vedetas.

Atravessarei pelos buracos negros,
Gigantes, anãs e também nebulosas,
Mil brilhantes galáxias conhecerei.

Enxames e superenxames escuros,
Quasares e supernovas fabulosas,
Outra constelação no céu, por fim serei !

2008 Vasco de Sousa

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Choro no meu silêncio

Mulher que chora, no seu silêncio de dor e sofrimento Todos os dias, pergunto-me onde estás,
Porque a saudade é muita, é demais !
Procuro ocupar-me um pouco mais,
E assim deixar este vazio para trás.

Sem ti, pouca coisa faz algum sentido,
As horas do meu dia respiram mau estar,
Dor mortal de saber que não vais voltar,
Como uma faca num coração sofrido.

Choro hoje no meu silêncio, por ti,
Em lágrimas, manifesto o meu amor,
Demonstrando o que nunca te pude dizer.

O grande pesadelo de viver aqui,
Vai sempre crescendo com este meu temor,
De sem ti, não conseguir mais viver.

2008 Vasco de Sousa.
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
A imagem foi retirada de dancadelagrimas.blogspot.com.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Nevoeiro cerrado

Nevoeiro cerrado que me cerca na encruzilhada da vida Esta névoa que me cerca é cerrada,
Um denso frio apodera-se de mim,
Em desespero, sinto a alma molhada,
O meu corpo, num lento torpor sem fim.

Estou perdido, não sei para onde vou,
O caminho é complexo e sombrio.
Alienado, já mal sei aonde estou,
Apenas sinto este maldito frio.

A minha vida está numa encruzilhada,
Ficarei, ou então tenho que prosseguir,
Pois esta névoa não se irá dissipar !

Mas o tempo prepara uma cilada,
Pois por mim, nunca irá ele decidir,
Farol que me guie, terei que procurar.

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
A imagem encontra-se aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Águas cristalinas do rio

Rio de águas cristalinas e tranquilas Água cristalina que corres no rio,
Embalam-me teus suaves cânticos,
Quando serpenteias em curvas a fio,
Por entre seixos brilhantes e polidos.

Esse teu sussurro eterno e doce
hipnotiza-me ! Fecho os olhos devagar...
Deixo-me ir, como se flutuando fosse,
E sinto-me como se estivesse a sonhar.

A tua transparência é amizade,

O teu murmúrio é pra mim alegria,
A tua pureza lembra-me a união.

O teu brilho é para mim a verdade,
Envolves-me numa doce fantasia,
Tu alimentas a minha grande paixão.

2008 Vasco de Sousa
O original desta imagem foi retirado aqui.
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Noite escura

Gotas de chuva perdidas na escuridão da noite, escorrem pela sufocante janela da minha sala Esta noite escura e solitária,
Que com o seu silêncio me ensurdece,
É para mim madrasta! Não se compadece,
Com esta minha falta de alegria.

Imensa escuridão que me provoca dor,
Deixa-me assustado, agonizante,
Um vento de arrepio, forte e cortante,
Um pouco de náusea pelo fétido odor.

Tremo fraco e assustado no meu canto,
Tenho medo! Choro convulsivamente.
Já não sei onde me poderei esconder.

Agora ouço a chuva no seu lamento,
Trovões ecoam assustadoramente,
Ausência de um amor que me deixa a sofrer!

2008 Vasco de Sousa

Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original encontra-se aqui.

sábado, 11 de outubro de 2008

Nem que viva mais cem anos

Nem que viva mais cem anos - esqueleto pensante Os meus dias agora correm devagar,
Como se nada houvesse pra fazer.
A expressão de ver o mundo terminar,
A impotência de já não saber viver.

Foste a razão deste meu desnorteio,
Quando repentinamente te afastaste.
Fria, distante, sem qualquer devaneio,
Mal saberás que o meu coração quebraste.

Crueldade que me deixou magoado,
Sofrendo por todos os teus enganos,
E sentindo essa dor como a última.

Pela tristeza e desgosto torturado,
Nem que eu viva por mais uns cem anos,
Não chorarei nem mais uma lágrima.

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor. Foi encontrada aqui.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Embriaguez literária

Embriaguez literária - mulher suada e sensual Torpor, suor, tontura e bebedeira,
Alegria, loucura, amor e paixão.
Euforia, cólica e caganeira,
Ódio, frieza, raiva, rancor, solidão.

Ânsia, revolta, desespero, morte,
Ressaca, vómito, arrependimento,
Tristeza, mágoa, vergonha e má sorte,
Dor, angústia, amargura, sofrimento.

Ambição, alento, desejo, anseio,
Prazer, deleite, calor e exultação.
Expectativa, fé, gosto, confiança.

Sonho, fantasia, ficção, devaneio,
Delírio, meditação, alucinação,
Alento, remorso, sopro, esperança.

2008 Vasco de Sousa

Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original foi retirado aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O corrupio louco dos ponteiros

O corrupio louco dos ponteiros - Relógio Este corrupio louco dos ponteiros,
Que nos faz cedo levantar, depois correr,
Ousa relembrar horários certeiros,
Que por vezes tanto queremos esquecer.

Num acto impensado e corajoso,
Desliguei esse maldito instrumento,
Ali fiquei, deitado e preguiçoso,
Esquecendo qualquer possível lamento.

Parti, leve, em busca da felicidade,
Relevando esse diário tormento,
Que me privaria do êxtase total.

E relegara a responsabilidade,
Querendo viver apenas o momento,
Sem perceber eu, que isso seria fatal.

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O meu Universo

Uma praia de sonho, ao pôr-do-Sol Fecho os olhos, como que a meditar,
Inspiro profunda e suavemente...
O calor do Sol vem até mim, devagar...
E flutuo no interior da mente...

Escorrego sobre a areia quente,
Deleito-me com o murmúrio do mar...
A inércia controla-me facilmente,
Tão ausente que já pareço dormitar.

Quando excluo todos os pensamentos,
Um deles, nunca poderei eliminar.
O fio condutor, o ponto de partida.

És tu que preenches todos os momentos,
Que bem me ensinaste o que é amar,
És o meu Universo, a minha vida !

2008 Vasco de Sousa

Os direitos sobre a imagem pertencem ao seu autor. Foi encontrada aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A Química do Amor

Uma molécula, uma ligação entre a ciência e o amorPoderia talvez pensar-se que a paixão,
Com os laboratórios, nada tem a ver,
Mas não será o amor uma combustão,
os sentimentos fumegantes, a ferver ?

Poderemos descrever uma união,
Como sendo uma mistura homogénea ?
Dois seres em constante transformação,
Na procura de uma alma gémea.

Os meus átomos a ti se querem juntar,
Irei identificar-te pelo teu odor,
Poderás reagir com todo o esplendor.

Substâncias que não se podem separar.
Junto a mim, serás o meu catalisador,
Sem ti, sou um reagente sem reactor.

2008 Vasco de Sousa

domingo, 21 de setembro de 2008

Master of puppets

Master of Puppets - corpos alinhados, todos servos de um mesmo senhor

Em silêncio, absorto em pensamentos,
Olho para aquelas campas alinhadas,
O medo de me imaginar por momentos,
Numa daquelas gavetas apertadas.

Corpos dispostos em filas ordenadas,
Todos eles, servos de um mesmo senhor,
Por cima, flores murchas e desbotadas,
A falsa alegria que esconde a dor.

Com medo tremo, quero fugir da morte,
Poder eu enterrá-la no fundo do mar,
Tão longe, que nunca mais eu a possa ver !

Tenho a certeza que não terei tal sorte,
Se para morrer, tenho de me preparar,
Bem o posso fazer, se aprender a viver !

2008 Vasco de Sousa
A imagem utilizada é para fins meramente ilustrativos. Todos os direitos pertencem ao grupo Metallica e empresas associadas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Desespero derradeiro

O pânico, o desespero e a dor de alguém que não pode mais esperarChoro ! Choro em completo desespero !
Por aquilo que não fui e pelo que sou.
Não sei o que faço, não faço o que quero !
Na minha alma a escuridão já me alcançou.

Uma dor que me sufoca lentamente,
Quero atirar-me para as ondas do mar,
E poder nelas me afundar suavemente,
As minhas mágoas a espuma possa lavar.

Força e coragem já me abandonaram,
E aos poucos desfaleço moribundo,
Já sem motivos para que possa lutar !

Alegria e esperança já partiram,
Já me fartei deste planeta imundo,
Quero partir, para nunca mais cá voltar.

2008 Vasco de Sousa

Os direitos da imagem pertencem ao seu autor. Esta imagem foi retirada aqui.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Tempos modernos

Uma caveira perdida na imensidão do deserto, um rosto desfigurado perdido na multidãoEsta correria de todos os dias,
Cega, todos os romantismos esgota.
Por mais bens materiais, até matarias...
A bondade foi corrompida ! Está morta !

Sufoco ! Choro sem aparente razão !
A vida vai perdendo o significado,
Próximas estão: A fome e destruição.
Ajuda-me ! Sinto-me desesperado.

O que tens, pode comprar-te a solidão,
Vendeu-te a alma, a tua ganância.
Porque o fazes ? Achas que não vais morrer ?

Neste Universo de grande vastidão,
Achas-te com demasiada importância,
Vives para ter, e não tens para viver.

2008 Vasco de Sousa

A fotografia é da autoria de Filipe Silva, apresentada no site Olhares - fotografia on-line.

domingo, 14 de setembro de 2008

Teus olhos verde mar

Teus lindos olhos verde mar
Poderei afirmar sem qualquer dúvida,
Depois das mais do que certas evidências,
Que padeço de doença conhecida,
Sofro as mais dolorosas experiências.

São agora inquietas, as minhas noites,
Perdi o apetite, já não consigo ver,
Quando nos cruzámos por breves instantes,
De senhor, um teu servo eu passei a ser.

O teu perfume logo me hipnotizou.
Esses teus olhos, grandes e de coragem,
Alegres, doces e verdes como o mar.

O teu doce andar logo me cativou,
Enfermo, desfaleço à tua imagem,
É a doença do amor, que me vai matar !

2008 Vasco de Sousa

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Procura Inútil

Por entre movimentos desajeitados,
Numa tonta e inexplicável procura,
Tumultuosos desejos precipitados,
Tão perto de um abismo que me devora.

Procurei eu de forma tão exaustiva,
Por aquilo que teimava em não encontrar.
Uma odisseia colossal e obsessiva,
Que me sugava a vida, sem lamentar.

Procuraria algo que não existe ?
Ou seria essa a minha vontade,
Doentia, possessiva, mesmo atroz ?


Não teria razão para estar triste,
Porque a tão desejada Felicidade,
Se encontra afinal tão pertinho de nós !

2008 Vasco de Sousa

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca in "Poesia completa"

sábado, 7 de junho de 2008

Nothing Else Matters

Mesmo longe, estou sempre perto de ti,
Esta união, que entre nós construímos
É a mais forte; A tudo resistimos,
A confiança procuro-a junto a ti.

Nunca abri o meu coração desta maneira,
Viveremos a vida como entendermos,
Nesta aliança que nos mantém unidos,
Todos os dias, algo novo nos espera.

Não são só palavras, mas sim os sentimentos,
Juntos viveremos os melhores momentos,
Com a certeza que nada mais nos importa.

Nunca me preocupei com o que dizem,
O que pensam, o que sabem, o que fazem,
O teu Amor; Nada mais me importa.

2008 Vasco de Sousa
Nota do autor: Este soneto resulta de uma muito modesta homenagem a um grande grupo que admiro há muitos anos - os Metallica, o qual foi baseado na letra de uma das suas músicas, com o mesmo título deste soneto. As restrições da rima, da letra da música e do número de sílabas, condicionaram o resultado final, que ficou aquém daquilo que esperava...
Transcrevo também a letra da canção, para que, todos os que não a conhecem, possam compreender a relação entre essa canção (muito especial para mim) e este soneto.


Nothing Else Matters
(letra de James Hetfield e Lars Ulrich - Metallica 1991)
Todos os direitos, pertencem aos autores da canção

So close, no matter how far
Couldn`t be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don`t just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never Cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

So close, no matter how far
Couldn`t be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never Cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don`t just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they say
Never cared for games they play
Never cared for what they do
Never cared for what they know
And I know

So close, no matter how far
Couldn`t be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Soneto ao Mar

Um belo amanhecer por entre a espuma do marSopros de espuma branca, de laivos brilhantes,
A tua fala que embala com suavidade,
Verde e azul, em tons deveras fascinantes;
Pasmo perante tal grandiosidade.

Quedo-me admirado com a tua força,
Como se, de importar o tempo deixasse;
Quando sobre ti flutuo, de mim fazes troça,
Como se, a minha vida de nada valesse.

Salpica-me todos os sonhos esquecidos,
Acorda todos os desejos já perdidos,
Com a tua magia, faz-me suspirar.

No meu encantamento por Dulcineia,
Sábio, derrubas meus castelos de areia,
Ensinas-me a vida ! Só por te admirar...

2008 Vasco de Sousa

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Quem sou eu ?

Ponto de interrogação - Quem sou eu ? Olho pelo vidro, de chuva salpicado,
Observo pela janela, o meu reflexo,
Não reconheço esse rosto maltratado,
Traído pela memória, fico perplexo.

E pergunto-me: Será que sei quem sou ?
A insatisfação cresce dentro de mim,
Uma raiva que as recordações apagou;
Uma revolta que parece não ter fim.

Hoje sinto que apenas em mim chove,
E já nem sei tão pouco o que me move,
Um sentimento sem nome, nem solução.

Apetece-me abrir aquela janela,
Molhar-me, olhando a suja viela,
Saltar através da negra escuridão.

2008 Vasco de Sousa

domingo, 25 de maio de 2008

Tu és aquela de quem eu mais gosto

Uma rosa simples, para um grande amor Quando à noite penso nesse teu jeito,
Despreocupada, alegre e vaidosa,
Essa doce voz com a qual me deleito,
Esses gestos que te tornam graciosa,

Sinto que valeu a pena de ti gostar,
E mesmo que não me queiras corresponder,
Nunca me importarei de por ti chorar,
Espero que ele, feliz te possa fazer...

Mas se o sentires e se o quiseres,
Se uma oportunidade me deres,
Meu Deus, por ti a tudo estou disposto !

Deixa-me cuidar de ti e proteger-te !
Quero gritar ao mundo, poder dizer-te:
Neste mundo tu és de quem eu mais gosto.

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original encontra-se aqui.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Tivesse eu nascido um bicho do campo

Paisagem do campo, contrastante com uma confusa sociedade moderna Tivesse eu nascido um bicho do campo,
Ou um pássaro a esvoaçar na brisa,
Uma lebre, andorinha ou pirilampo,
A serpente que por entre as pedras desliza,

E teria graciosamente escapado,
Na moderna sociedade da confusão,
Ao grande e brilhante caos instalado,
Muita e actualizada desinformação.

Poderia descansar ao sabor do vento,
Sugaria eu, sem pudor, cada momento,
E não me esqueceria pois de viver.

Tivesse eu nascido num buraco fundo,
Já não me fartaria deste meu mundo,
Pulsaria de alegria até morrer.

2008 Vasco de Sousa

Os direitos desta imagem pertencem ao seu autor.
O original encontra-se aqui.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Todas as palavras que não mais te direi

Estrangulam-se na minha garganta, todas as palavras que não mais te direi Todas as palavras que não mais te direi,
Regurgitam nesta garganta sufocada;
A tristeza; Angústia em dor transformada.
Por quem outrora suspirei; Não mais verei.

Desculpa-me sempre que te apontei defeito,
Eterno será este amor que não tem fim,
Porque foste tu assim embora sem mim,
Ferida permanente aberta no peito.

Grande saudade que me corroi por dentro,
Da minha vida traço sinistro espectro,
Essa malvada que te afastou assim.

Desapareceste quando tinhas tanto
para dar; Cada linha será um pranto.
Porquê ? Levasse-me antes Ela a mim !

2008 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
O original encontra-se aqui.

domingo, 18 de maio de 2008

Amanhã não esperes mais por mim, Amor

Uma tempestade de sentimentos que me afoga em ácidas lágrimas Amanhã não esperes mais por mim, Amor,
Nesta doente alma levo um turbilhão,
Que me arrasta num imenso mar de dor,
Para o deserto, longe da multidão.

Apaga-me o corropio do tempo,
Sinto-me fraco para poder resistir,
Vento da vida que s`entranha no corpo,
A hora aproxima-se; Terei de partir.

Matam-me as tuas lágrimas sofridas,
De ti, ácidas palavras escondidas,
Ritmo sufocante que me seca a vida.

Facas que m`atravessam a carne rasgada,
Esta grande paixão em dor transfigurada,
Não quero que sofras mais ! Estou de partida...

2008 Vasco de Sousa

Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado-
Alavanca desviada do seu fulcro

-E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

Augusto dos Anjos

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Com os mortos

Os que amei, onde estão? idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental

Tese e antítese

I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia!

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia...
Respira fumo e fogo embriagada...
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino Céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!


II

Num Céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino:

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante...
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que fecunde o sangue dos heróis.

Antero de Quental

Justitia Mater

Nas florestas solenes há o culto
Da eterna, íntima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma cativa,
Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constelado passa o vulto
Do inominado Alguém, que os sóis aviva:
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva
Dum Deus que luta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde solta
Se ergue, de sangue mádida, a revolta,
Como incêndio que um vento bravo atiça,

Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, à grande luz da história,
Os combates eternos da Justiça!

Antero de Quental

Maior tortura

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite,
E não tenho nem sombra em que me acoite,
E não tenho uma pedra em que me deite!

Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços!
Perco-me em mim na dor de ter vivido!
E não tenho a doçura duns abraços
Que me façam sorrir de ter nascido!

Sou como tu um cardo desprezado
A urze que se pisa sob os pés,
Sou como tu um riso desgraçado!

Mas a minha Tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para concretizar a minha Dor!

Florbela Espanca in "Trocando olhares"

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Não te conheci, mas não te esquecerei

Não te conheci, mas não te esquecerei.
Culpa, tua não é ! Minha, porventura...
Logo soube ! Arrependido ficarei,
Perdido pela tua doce frescura.

Formosa ías com o teu andar sedutor,
Num relâmpago passaste; Não te abordei !
Hoje choro ! Não de mágoa, mas sim de dor,
Depois de te ver, o mesmo não mais serei.

Naquele momento foste a minha rosa,
De entre todas elas, a mais formosa,
Que nunca mais alegrará o meu jardim.

Um mundo que se ergueu, para desmoronar,
A paixão que acabou antes de começar,
Porque haveria de terminar assim ?

2008 Vasco de Sousa

domingo, 11 de maio de 2008

Nascemos para amar

Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formusura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Bocage in «Obra Poética», por Carlos Nogueira, 1997

Se pena por amar-vos se merece

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.

Luís Vaz de Camões

Eu cantarei de amor tão docemente

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.

Luís Vaz de Camões

Quem presumir, Senhora, de louvar-vos

Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.

Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.

Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.

Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.

Luís Vaz de Camões

Amor, que o gesto humano na alma escreve

Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve

.Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.

Luís Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

Descalça vai para a fonte

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís Vaz de Camões

Endechas a Bárbara escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

U~a graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

Luís Vaz de Camões

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

Luís Vaz de Camões

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís Vaz de Camões

O fogo que na branda cera ardia

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.

Luís Vaz de Camões

Quem pode livre ser, gentil Senhora

Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.

Luís Vaz de Camões

Transforma-se o amador na cousa amada

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Luís Vaz de Camões

Verdes são os campos

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís Vaz de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões

Soneto 54

Oh, como a beleza parece mais bela
com o doce ornamento que a verdade produz!
A rosa tão bela, mas mais bela a julgamos
Pelo doce aroma que nela seduz.

As rosas silvestres têem a cor tão profunda
Quanto a tintura das rosas perfumadas,
Têem os mesmos espinhos e brincam tão vivamente
Quando o sopro do verão expõe os botões velados;

Mas exibem-se apenas para si mesmas,
Vivem esquecidas e murcham obscuras;
Morrem sozinhas. As doces rosas, não;

De suas doces mortes surgem as mais doces essências.
e assim também a ti, a bela e adorável mocidade,
Fenecido o frescor, revela em versos tua verdade.

William Shakespeare

Soneto de Pablo Neruda em 100 love sonnets

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida do meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.

De Pablo Neruda 2007

Soneto de Pablo Neruda em 100 love sonnets

NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outro maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

De Pablo Neruda 2007

sexta-feira, 9 de maio de 2008

As minhas memórias perdidas

Hoje amo-te como nunca amei ninguém !
Apenas tu me despertas grande paixão.
Se um dia eu gostar de mais alguém,
Nunca será com tão grande dedicação.

Eu sei que és a mulher da minha vida.
Mas também sei, que para outro te perdi.
Se tu não fosses uma menina linda,
Talvez eu não chorasse, porque desisti.

Queria que por mim te interessasses,
Gostava que a fundo me conhecesses,
Por tua livre, espontânea vontade.

Quando me recordo da tua voz meiga,
Que me livra totalmente da fadiga,
As lágrimas correm-me sem piedade.

2008 Vasco de Sousa

Partiste para todo o sempre

Eu flutuo perdido nas ondas do mar...
Nas profundezas, ficou o meu coração,
Em mil pedaços ficou quebrado a sangrar,
Por esta enorme e perdida paixão.

Em tuas mãos sempre esteve o meu destino,
Tu condenaste todo o meu futuro.
Deixaste-me em completo desatino,
Fechado atrás deste imenso muro.

Nós poderíamos hoje estar juntos,
Experimentando novos sentimentos,
Num longo percurso de felicidade !

Mas, foste apenas tu que o decidiste,
Não me consultaste e depois partiste.
Deixaste apenas a infelicidade...

2008 Vasco de Sousa

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Sexo

Longas pernas em salto alto e negras meias de ligas Breves raios de Sol cortam a penumbra,
Talvez sonhe ou esteja acordado,
Vislumbro vagamente a tua sombra,
O som dos teus saltos, fico excitado.

Suavemente ao meu ouvido murmuras,
Lentamente despertas os meus sentidos,
Suave toque de seda das negras meias,
Dor de prazer dos teus saltos afiados.

O êxtase do teu cheiro a cabedal,
Roças no meu corpo; cheiro divinal,
Tua pele macia, doces sensações.

De gatas, beijas-me tu devagarinho,
Tua língua quente, doce carinho,
No clímax, uma explosão de emoções.

2008 Vasco de Sousa

terça-feira, 29 de abril de 2008

Carícias

Tic-tac do relógio compassadamente,
É o tempo de uma vida que se esgota,
O ruído do mundo, passa a gente,
E na boca, amargo sabor de derrota.

Levanto-me sob a luz do céu estrelado,
A Lua ainda embala sonhos tardios,
Regresso tarde, desiludido e cansado,
De ti relembro alguns gestos fugidios.

Choro em silêncio, perdido na multidão,
Múltiplas caras que aumentam a solidão,
Mal tenho tempo de para ti olhar.

Por todas as carícias que eu não te dei,
Um rumo certeiro que ainda não tracei,
Crescente é a certeza de te amar.

2008 Vasco de Sousa

terça-feira, 22 de abril de 2008

Soneto 33

Olha, Marilia, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes;
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores;

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares, sussurrando, gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira
Mais tristeza que a noite me causara.

Bocage in «Obra Completa Volume I - Sonetos»

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O grito da morte

E grita o poeta desesperado !
Quando sabe que perdeu a sua paixão.
Na mágoa e dor, se viu afogado,
Uma faca cortante no seu coração.

E grita o poeta na sua aflição !
A sua expressão irreconhecível.
Aos poucos pára de bater o coração,
Numa intensa agonia terrível !

E vencido, cai finalmente por terra,
Perdido na solidão que o aterra,
Para que não mais se volte a levantar !

Eu sei que ouviste o grito da morte !
Ó mulher, paixão de minha pouca sorte !
Que me deixaste para sempre a gritar...

1991 Vasco de Sousa

terça-feira, 15 de abril de 2008

O amor verdadeiro

Gostava de ser capaz de te conquistar,
Que me beijasses com amor verdadeiro.
Queria no meu coração te instalar,
Gritar o teu nome ao mundo inteiro !

Como eu queria, de ti ficar perto,
E contigo os meus desejos partilhar,
Sentir o calor do teu corpo esbelto,
Poder abraçar-te sob as ondas do mar.

Eu, sobre ti, quero escrever um livro,
Para descrever tudo o que me lembro,
Da minha mais preciosa recordação...

Para mim, és a coisa mais importante !
Infelizmente, de mim vives distante...
Aos poucos, tu amarguras meu coração.

1991 Vasco de Sousa

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Tinha o trono onde ter uma rainha

Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria…
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos

Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos…

Fernando Pessoa

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O perfume dos teus cabelos

Hoje, eu desejei estar perto de ti,
Sentir esse perfume dos teus cabelos,
Agarrar os bons momentos e vivê-los,
Eu não sei porque é que não estás aqui.

Para mim, tu representas quase tudo,
Mudaste completamente a minha vida !
Sei que és a rapariga mais querida,
Que encontrei neste imenso mundo.

Esse teu poder, podia me transformar !
Tudo faria para te poder amar...
Mas não te posso forçar a gostar de mim.

Vivo apenas para te fazer feliz.
Porque não me queres ? O que é que eu fiz ?
Porque me mostras indiferença a mim ?

1991 Vasco de Sousa

Porque me fazes sofrer ?

Dizem que o amor é felicidade !
Já não acredito naquilo que se diz,
Pois sinto-me extremamente infeliz,
Desde que sei que te amo de verdade.

Por ti eu estou muito apaixonado,
E eu sei que tudo seria perfeito,
Se gostasses um pouco deste sujeito,
Excêntrico, louco e enamorado.

Porque é que tanto tu me fazes sofrer ?
Como se me abandonasses a morrer...
Este amor para mim é a solidão !

E deixaste-me no meio do caminho,
Sem quaisquer despedidas, ou um carinho,
Fazes-me sofrer, sem teres qualquer razão.

1991 Vasco de Sousa

Alma minha gentil que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algu~a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís Vaz de Camões

Recordações...

Naquelas noites longas e muito frias,
Quero que estejas comigo em casa,
Passando o Inverno junto da brasa,
Naquelas noites de Dezembro festivas.

Por entre todas aquelas almofadas,
Junto à lareira acesa, deitados,
Sobre aquele chão fofo, abraçados,
Relembrando histórias passadas.

Na TV vemos um filme romântico,
A enorme sala, estilo prático...
Fraca, agradável luz dos projectores.

Ao beijarmo-nos apaixonadamente,
Doze badaladas soaram na mente...
Viva o lindo sonho dos escritores.

1991 Vasco de Sousa

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Nunca te esquecerei

Quanto mais tempo permaneço sem te ver,
Maiores são as saudades que eu tenho,
Mais difícil é aquilo que desenho...
Como tentei ! Não te consigo esquecer !

Durante a noite eu sonho contigo,
De manhã a tua imagem relembro,
Numa destas manhãs frias de Novembro,
Em que não serei mais do que teu amigo.

Gostava que tu me conhecesses melhor,
Que a minha esperança fosse maior,
Deixa-me mostrar-te aquilo que eu sou !

Como tu, não existirá nenhuma mais,
Não ligo a este bando de anormais,
Que dizem: Este coitado já se passou...

1991 Vasco de Sousa

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Tristes lágrimas cristalinas

Detesto-me por não ter tido coragem,
De ao pé de ti chegar e dizer,
Que te amo, minha ideal imagem,
És a minha única razão de viver !

Porque é que nunca olhaste para mim ?
Parece-me que tentas fingir não me ver...
Sinto-me demasiado perto do fim,
Cada vez que penso que te vou perder.

Porque tão terrivelmente mal me sinto ?
Hoje diz-me baixinho o meu instinto,
Que ficarei toda a noite a chorar...

E as lágrimas rolam-me pela cara,
Quando penso na tua beleza rara,
Que estupidamente deixei escapar...

1991 Vasco de Sousa

Dor

Dor... grande, imensa e horrorosa dor !
Cuja intensidade vai aumentando,
Naquela progressiva onda de terror,
Que cá por dentro me vai dilacerando.

Porque me feriste tão profundamente ?
Porquê ? Deixaste-me aqui quas`a morrer...
Num último suspiro inconsciente,
Com o tempo esta dor irá desvanecer.

Porque é que sinto o sangue gelado ?
Porque tenho eu o coração cortado ?
Apenas porque te afastaste de mim...

Não podias deixar-me assim doente !
Tu abandonaste-me eternamente.
Passada a dor... Tudo chegará ao fim !

1991 Vasco de Sousa

Verdes ondas do mar

Lá fora chove com intensidade,
E as ondas revoltam-se brilhantes...
Naquela casa, longe da cidade,
Tudo não voltará a ser como dantes.

Junto à janela, observamos o mar...
A lareira crepita, ao som da chuva...
O teu sorriso, o brilho do teu olhar,
Todo esse fulgor que te mantém viva.

O som das belas vagas esverdeadas,
O brilho das tuas meias prateadas,
Como eu gosto, de ti perto estar.

Nas árvores, o sinistro som do vento,
No meu coração, um sinal de alento,
Por longas horas, ali vamos ficar...

1991 Vasco de Sousa

Nevoeiro frio

Estou perdido e sinto-me confuso,
Já não tenho mais vontade de escrever,
Vejo tudo muito cinzento, difuso...
Apenas me apetece introverter !

Sei que te afastaste completamente,
Pressinto que nunca mais nos vamos ver...
Eu gostava de saber, precisamente,
Porque me apaixonei por certa mulher.

Tu desapareceste da minha vida,
Mas no meu coração tu estás ainda,
E de lá não te consigo desalojar !

Se pudesses desculpar esta criança,
Fornecer-lhe um pouco de esperança,
Talvez eu fosse capaz de me animar.

1991 Vasco de Sousa

Quero estar ao pé de ti

Quero poder envolver-te nos meus braços,
Sussurrar-te segredinhos ao ouvido,
Vibrar de emoção ao som dos teus passos,
Ouvir a tua voz chamar-me: Querido !

Quero levar-te ao colo para casa,
à noite, ver as estrelas a teu lado,
Sentir o calor do teu corpo em brasa,
Ouvir a tua voz quando estou deitado.

Quero afagar teus cabelos dourados,
Tão atraentes, brilhantes e compridos,
Pois és a rapariga com quem eu sonhei !

Ouvir a tua voz suave e meiga,
Por ti derreter-me como manteiga,
Desde sempre, foste tu quem eu desejei !

1991 Vasco de Sousa

O Jantar inesquecível

Hoje sonhei contigo, e imaginei...
Que nos juntámos num romântico jantar,
à luz das velas, sob o brilhante luar,
Naquele jardim que mentalmente plantei.

Tu lá estavas, bonita, deslumbrante...
O sonho tornara-se realidade,
Descobri a palavra felicidade,
Nesse teu olhar curioso e brilhante.

As palavras perderam significado,
Quando descobri com bastante agrado,
Nos teus olhos, o que tu sentias por mim.

Quis nunca mais acordar daquele sonho,
Deixar para sempre o mundo tristonho,
E ficar contigo mesmo até ao fim !

1991 Vasco de Sousa

Porque não lutei por ti ?

Como é possível abandonarmos alguém,
A quem amamos profundamente ?
Como é possível esquecermos alguém,
Que ficou bem gravada na nossa mente ?

Como será possível deixarmos alguém,
Que nos dá toda esta força de viver ?
Como é possível afastarmos alguém,
Que queremos forçosamente proteger ?

São múltiplas as perguntas que me surgem,
As respostas são uma cinzenta nuvem,
Que eu muito gostaria de perceber.

Porque me sinto culpado da minha dor ?
Porque é que não lutei pelo teu amor ?
Sei que me afasto, sem me aperceber...

1991 Vasco de Sousa

Viagem de paixão

Eu quero estar para sempre contigo,
E para longe viajar a teu lado.
Saber que irás jantar comigo,
Num óptimo restaurante sossegado.

Iremos juntos, viajar para fora,
Conhecer novos países e pessoas,
Perdermos o tempo, esquecer a hora,
Apreciando todas as coisas boas.

Vem daí e aceita o meu convite,
Tu apagarás esta expressão triste,
De quem muito ama e não é amado !

Vem comigo à noite ver as estrelas,
E o nascer do Sol, atrás das janelas,
Nascemos para ficar lado a lado...

1991 Vasco de Sousa

Vem...

Deixaste-me só, aqui abandonado,
No enorme deserto que é a vida !
Tal qual como um mendigo desgraçado,
Sem qualquer abrigo, água ou comida.

Sozinho nunca poderei sobreviver,
Pois falta-me algo muito importante.
Falta-me o amor duma certa mulher,
Único possível revitalizante.

De ti, só desistirei quando morrer,
Ao ter-te a ti, nada mais posso querer,
Pois sei que és o sonho de qualquer homem...

No meu canto, continuo a esperar...
Talvez um dia tu vás para mim voltar,
E sabes que serás bem recebida... Vem...

1991 Vasco de Sousa

Leva-me para junto do teu coração

Onde estás, quando preciso de ti ?
Por favor, vem salvar-me desta maldição...
Porque raio é que não vens aqui ?
Leva-me para junto do teu coração...

Se tu já me conheces minimamente,
Sabes perfeitamente o que eu quero,
Quero que tu me seduzas subtilmente,
Que me envolvas tal como eu espero.

Estou sem rumo, e no mundo perdido,
Tal como se eu tivesse sido ferido,
No ponto mais íntimo da minha alma !

Quero que me dês desesperadamente,
Uma razão mais do que suficiente,
Para atingir finalmente a calma...

1991 Vasco de Sousa

Provocação sexual

Sabes, quando te sentas na minha frente,
Usando essa provocadora saia,
As tuas pernas cruzadas docilmente,
Esse ar fatal de como quem desmaia...

Junto a ti está o negro cabedal,
Mostrando essas pernas belas e perfeitas,
Sabes que essas meias são da cor ideal,
Sabes que ao meu olhar estão sujeitas.

Desejas provocar-me este instinto,
Sinto-me como um animal faminto,
Com o desejo de te devorar !

Esse teu olhar não me engana nada,
Percebo que queres ser saciada,
Por favor, pára de me provocar !

1991 Vasco de Sousa

Tempestade no coração

Aos poucos, as folhas caem lentamente,
Douradas, imobilizadas pelo chão.
A tua imagem ainda presente...
Lembrando-me a imensa solidão.

O mau tempo rápido se aproxima,
Sobre mim se abate a tempestade,
Na alma, o fogo intenso que queima,
Os últimos traços de felicidade.

A chuva arrasta a tua imagem,
Tornando-te aos poucos numa miragem,
Enterrando-me cada vez mais na lama.

Desesperado já não sei o que fazer,
Quando um relâmpago me vem acolher !
Ao longe... A tua voz que me chama...

1991 Vasco de Sousa

Breve sonho feliz

Hoje, o meu sonho é estar contigo,
Nas altas montanhas de neve cobertas,
Tendo uma cabana como abrigo,
Uma lareira aquecendo as mantas.

Sentados confortavelmente no colchão,
Por entre almofadas e peles belas,
Tendo as chamas como iluminação,
Pelo vidro, admiramos as estrelas.

Abraço-te fortemente nos meus braços,
Teu olhar atento, seguindo meus passos,
O teu corpo quente, aconchegando-se...

Tu está feliz, dás-me o teu amor,
O meu coração por ti bate com vigor !
Por fim, o sonho breve, apagando-se...

1991 Vasco de Sousa

domingo, 6 de abril de 2008

Como posso chegar a ti ?

E tudo acabou, sem sequer começar...
Eu sinto que estás tão distante de mim.
Ainda não sei bem como continuar,
Mas não deveríamos acabar assim.

Olho vidrado para o infinito,
Esperando que surjas no horizonte.
Sei perfeitamente que estou frito,
Nunca me deixarás passar a ponte.

Cada vez me sinto mais afastado,
Cada vez me sinto mais agoniado !
O que fazer, para chegar a ti ?

Porque me sinto tão impotente ?
Porque continuo em estado latente ?
Apenas te peço, para chegar aqui.

1991 Vasco de Sousa

Desespero derradeiro

Peço-te, imploro-te, suplico-te:
Ouve o que eu tenho para te dizer !
Para ti, rastejo desalmadamente.
Quero que me olhes e que me possas ver !

Poderei embaraçar-me, humilhar-me,
Para mim não tem qualquer significado.
Na tua presença eu ajoelho-me,
Posso até ser inferiorizado.

Para mim, tu estarás sempre primeiro,
Sabes que tu és o ar que eu respiro,
Para mim, és uma substância vital !

Pensa um pouco nestas minha palavras,
Verás que todas elas são verdadeiras,
Não me deixes nesta agonia mortal...

1991 Vasco de Sousa

Poeta louco apaixonado

Eu gosto de ti, mais do que outro qualquer.
E acredita nisto, que é verdade !
Nós poetas, mesmo sem nos aperceber,
Amamos com muito mais intensidade !

Se eu te digo que tu és a minha paixão,
Amar-te-ei sempre enquanto viver.
Quando te ofereço o meu coração,
Dar-te-ei se puder, tudo o que tiver !

No entanto, se tudo oferecemos,
Deverás saber que não esquecemos,
De alguma coisa exigir em troca !

Apenas quero o teu sincero amor,
Unívoco, sem limites, animador.
Ajuda-me a encher esta alma oca...

1991 Vasco de Sousa

Agradável loucura sensata

Quando o álcool sobe até à mente,
O som atinge o volume máximo.
Eu sinto então que, repentinamente,
Algo se solta ! Não sou o mesmo !

Sinto aquela intensa fúria louca,
Que pouco a pouco atinge o auge !
Quando olho par ti, minha boneca,
Não sei... poderia acontecer hoje.

Sabes que não te desejo nada de mal.
Magoar-te seria pecado mortal !
Tenho algum medo de não me controlar.

Vem ter comigo e dá-me a tua mão !
Mostra-me o lindo caminho da razão !
Por favor... Não me podes abandonar !?

1991 Vasco de Sousa

A união do corpo e do espírito

Sempre gostei do que era mais perfeito.
E sempre preferi o que era melhor.
Facilmente detecto qualquer defeito,
E para ser esquisito, sou do pior !

Talvez por ter sido sempre exigente,
Me decepciono com facilidade,
Mas agora eu sei que tu realmente,
És quem me pode dar a felicidade.

Entre todas elas, és tu a mais bela,
És sem dúvida única, és aquela,
Cuja beleza interior é demais !

Antes do corpo, está o teu espírito !
O semelhante conheço e respeito...
Somos tão diferentes... Somos tão iguais...

1991 Vasco de Sousa

Fogueira interior

Ali sentado, observando as chamas,
A alma com elas ardendo juntamente,
Vivendo intenso vazio, reclamas,
Sentes a tua dor infinitamente.

Olhos perdidos em múltiplas lágrimas,
Tristes pensamentos tão longe perdidos...
Numa incessante procura de rimas,
Que te transmitam sentimentos feridos.

És, foste e serás o meu grande amor !
Mesmo que me deixes nesta imensa dor,
Que me desfaz completamente por dentro.

Como tu, é impossível de encontrar !
E de outra, é impossível eu gostar !
Saí para a rua... Nunca mais entro...

1991 Vasco de Sousa

Meu sonho, meu pesadelo

Quando penso em ti e não está aqui,
Sempre que estou alguns dias sem te ver...
Choro triste sem disso me aperceber,
E louco, grito desesperado por ti.

Nervoso, abraçado ao travesseiro,
Limpo a custo as lágrimas húmidas,
Lá dentro na alma, saram as feridas,
Já não conseguindo me erguer inteiro.

Ao cair da noite estou arrasado,
Sonho com o teu nome sobressaltado,
E vivo pesadelos ao adormecer.

Acordo triste, com frio e com medo,
Procuro-te em vão ao lado esquerdo,
Sabes que, sem ti não consigo mais viver.

1991 Vasco de Sousa

Espera eterna

Sabes, quanto mais tempo estou sem te ver,
Mais forte se torna esta minha paixão.
Porque é que tu me fazes tanto sofrer ?
Obrigas-me a viver na escuridão...

Esta coisa estranha que por ti sinto,
Diferente de todas as que conheço,
Ó curiosa sensação que, pressinto,
Seres tudo o que desconheço.

Por ti, esperarei eternamente,
E sei que só poderei ficar contente,
Quando tu escutares o meu coração.

Fica pois sabendo que por ti espero,
Tu és a única riqueza que quero,
Alimentas uma violenta paixão !

1991 Vasco de Sousa

Cavaleiro andante

Nobre e vitorioso cavaleiro,
Flutuas numa armadura dourada.
Através das nuvens chegarás primeiro,
Às mortais celas da serpente alada.

Nos céus, os seus gritos ouvem-se ao longe,
Prisioneira, grita da sua janela !
Lá morreram três donzelas e um monge,
E a última não deverá ser ela !

Ele, um guerreiro de todas as eras,
Empunha a espada perante as feras,
Nos seus olhos o terrível ódio mortal !

Finalmente, como era seu desejo,
Depois de salva, dá-lhe um beijo.
Seguem ambos pelo caminho divinal.

1991 Vasco de Sousa

Grito desesperado

Podendo ter todas as que não desejo,
Só desejo aquela que não posso ter !
A frustração de lhe querer dar um beijo,
E infelizmente não o poder fazer.

Desejo, directamente proporcional,
à indiferença que tu mostras por mim.
Revolta-me este sentimento mortal !
A história não pode acabar assim !

Apesar de me sentir como vítima,
A culpa é minha, ainda por cima,
E de ninguém eu a procuro esconder.

Peço-te então que me venhas ajudar,
Peço-te então que tentes de mim gostar !
Digo-te que não te irás arrepender...

1991 Vasco de Sousa

Insegurança

Quem sou eu ? De onde vim ? Para onde vou ?
Porque é que te afastas assim de mim ?
Porque me sinto mal, tal como estou ?
Como ? Como é que hei-de viver assim ?

Porquê tu ? Onde estás ? Como nasceste ?
Porque me sinto agora tão inseguro ?
Perdi-me eu, desde que tu apareceste ?
Sim, como um fruto demasiado maduro...

Porque estou aqui ? Para quê viver ?
Não me deixes ! Não quero morrer !
Será que estarei a ficar louco ?

Deverei eu, sentir-me assim tão mal ?
Tira-me já deste mundo infernal !
Quero ser feliz ? Pelo menos um pouco...

1991 Vasco de Sousa

Sensações

Bela frescura da brisa do mar,
Café, intenso e forte cheiro,
Os restos do teu perfume no ar,
Nos teus olhos um fogo certeiro.

A fruta, madura e cheirosa,
Deitado na relva ao sol quente,
Uma sobremesa deliciosa,
Banho de imersão confortante.

Ensinaste-me o que é a paixão,
Deste-me uma nova sensação,
E momentos de enorme prazer !

Deste-me coisas inesquecíveis,
Suaves, discretas, agradáveis,
Uma boa razão para viver !

1991 Vasco de Sousa

Memórias matinais

Sabes, quando te vejo de manhã,
Assim fresca, bela e bonita,
Julgo-me até pertencer ao clã,
De bons modos e roupa catita.

Sinto-me um milionário,
Mas tu, és a única riqueza,
Um teorema, corolário !
Tu, que possuis tamanha beleza.

Eu, antes de ti ninguém amara,
És graciosa, simples e rara,
És tu que me podes fazer feliz !

Tu és aquela por quem deliro,
És a única que eu admiro,
Não gostas de mim ? O qué que eu fiz ?

1991 Vasco de Sousa

Vertigem apaixonada

Fixa-me e olha-me no rosto.
Deixa-me amar a tua expressão.
Sabes que és de quem mais gosto.
Por ti sinto verdadeira paixão !

Quando tu estás aqui por perto,
Sinto o cheiro dos teus cabelos,
Deixas-me tonto, fico envolto,
Nesses teus caracóis muito belos.

Posso ser um rapaz indeciso,
Mas deliro com o teu sorriso,
Fazendo-me vibrar de emoção !

Derreto perante o teu olhar,
Para sempre saberei te amar,
Desejo demais o teu coração !

1991 Vasco de Sousa

Onde estás tu ?

Quero beijar-te e não te vejo.
Quer`abraçar-te e não te sinto,
Porque provocas este desejo ?
Porque me deixas tão inquieto ?

Agarro-te e não te encontro.
Escuto-te e não ouço nada.
Porque me feres por dentro ?
Porque me deixas só, na estrada ?

Grito-te e tu não me escutas,
Imploro-te e tu não me ligas...
Rastejo, e logo sou pisado !

Porque é que não me escutas ?
Porque só me devolves urtigas ?
Porque me deixas tão arrasado ?

1991 Vasco de Sousa

Revolta interior

Naquele breve instante de fúria,
Revoltei-me para todo o sempre !
Deitei o meu diário na pia,
E senti o diabo no ventre !

Amaldiçoei tudo e todos,
Desejei ver-te desaparecer.
Sentindo-me num mundo de tolos,
Por pouco desejaria morrer !

Quase odeio de tanto gostar,
Salva-me antes de me atirar,
Pois começo a estar perdido.

Eu já não sei o que sentir,
Agarra-me antes de eu partir,
Traz-me à minha vida sentido !

1991 Vasco de Sousa

Não choro mais por ti

Hoje eu sei que por ti não choro mais,
Apesar de não te conseguir esquecer...
Lembro-me do teu rosto ao entardecer,
E o fardo torna-se para mim, demais.

Tu tiraste-me a vontade de viver,
E deixaste-me perdido na multidão.
Como me dói esta terrível solidão...
Estou só na rua, e está a chover !

Ama-me com a mesma intensidade !
Imploro-te alguma felicidade !
Acho que também mereço ser feliz...

Deixa-me pois alegrar a tua vida !
Quero poder chamar-te: Minha querida !
Não choro mais... mas continuo infeliz...

1991 Vasco de Sousa

terça-feira, 1 de abril de 2008

Douradas folhas de Outono

Douradas folhas de OutonoO dia nascendo lentamente,
O brilho do Sol espreita nas árvores,
Ali no jardim, vejo claramente,
O orvalho húmido na flores.

O frio da manhã está presente,
Aguçando logo todos os sentidos,
E fica claro na minha mente,
O que se passa nos seus recantos.

Vejo então as folhas caindo,
Lembrando-me a estação fria.
Não consigo deixar de pensar em ti !

Recordo o teu rosto lindo,
Vivendo essa tua alegria,
Sinto-me feliz por estar aqui !

1991 Vasco de Sousa
Os direitos da imagem pertencem ao seu autor.
A imagem original encontra-se aqui.

Tempestade cerebral

O ruído do trovão fez-se ouvir !
O som ensurdece, a luz cega !
O heavy metal podes sentir,
Peço-te que ouças minha amiga !

Pois não se pode gostar de alguém,
Que não ouça a mesma música.
Alguém que, enfim, procure também,
Ter a coragem, ter genica.

Ao menos faz uma tentativa,
Tenta gostar daquilo que gosto,
Tenta compreender-me um pouco.

Eu vou ficar na expectativa,
Ao ler a resposta no teu rosto !
Sou excepcional, ou sou louco ?

1991 Vasco de Sousa

Viagem fantástica

Vem daí e viaja comigo,
Num mundo fantástico irreal.
Confia neste rapaz amigo,
Que não te deseja nada de mal.

Deixa que o sonho se transforme,
Em algo bonito e natural.
Faz com que este sonho disforme,
Seja maravilhoso e real.

Deixa-me levar-te para longe,
E vive a minha fantasia,
Respirando a felicidade...

Deixa-me levar-te até ao auge,
Num dipólo prazer-audácia.
Quero dar-te a tua liberdade !

1991 Vasco de Sousa

Agradáveis memórias

Quando me sinto cansado,
E mesmo quase a desanimar,
Ao fim do dia estou cansado,
E sem vontade de continuar...

Tento pois recordar-me de coisas,
Belas e agradáveis para mim.
Sabes que tu és de todas elas,
A que mais significa para mim.

Sinto-me mesmo bem humorado,
Sinto-me alegre e contente,
Recordando-me da tua genica.

Electrões em `stado excitado,
Energia no estado latente,
Passando a energia cinética.

1991 Vasco de Sousa

Liberdade incondicional

Através daquele ar cerrado,
O som corre violentamente,
O seu volume ensurdecendo,
Quem se encontra ali presente.

Aquele ruído metálico,
Deixa-me sempre enfeitiçado,
Aquele ruído metálico,
Transforma-me num desatinado.

Deixo-me envolver nos decibéis,
Salto e corro como um louco,
E eu transformo-me mesmo ali.

Eu posso inverter os meus papéis,
Ou usar a máscara do pau oco,
Mas não posso deixar de pensar em ti.

1991 Vasco de Sousa

A escolhida

Quando o frio surge lá fora,
E me arrepia cá por dentro,
Quero bastante ir-me embora,
Para onde ? Já nem me lembro...

Quero que estejas ao pé de mim,
Poder abraçar-te de verdade,
E sentir que, enquanto for assim,
O meu sonho é a realidade !

És tu aquela de quem eu gosto,
Foste tu a minha escolhida,
De quem gostarei eternamente !

Sempre que me lembro do teu rosto,
Sei que serás sempre a mais bonita.
Que `stá guardada na minha mente !

1991 Vasco de Sousa

domingo, 30 de março de 2008

Ditoso seja aquele que somente

Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando absente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.

Mas triste de quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.

Luís Vaz de Camões

sábado, 29 de março de 2008

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

Senhor João Lopes, o meu baixo estado
ontem vi posto em grau tão excelente
que vós, que sois enveja a toda a gente,
só por mim vos quiséreis ver trocado.

Vi o gesto suave e delicado
que já vos fez, contente e descontente,
lançar ao vento a voz tão docemente
que fez o ar sereno e sossegado.

Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto
ninguém diria em muitas; eu só, cego,
magoado fiquei na doce fala.

Mas mal haja a Fortuna e o Moço cego:
um, porque os corações obriga a tanto;
outra, porque os estados desiguala.

Luís Vaz de Camões

Senhora já dest' alma, perdoai

Senhora já dest' alma, perdoai
de um vencido de Amor os desatinos;
e sejam vossos olhos tão beninos
com este puro amor, que d'alma sai.

A minha pura fé somente olhai,
e vede meus extremos se são finos;
e se de algüa pena forem dinos,
em mim, Senhora minha, vos vingai.

Não seja a dor, que abrasa o triste peito,
causa por onde pene o coração,
que tanto em firme amor vos é sujeito.

Guardai-vos do que alguns, Dama, dirão;
que, sendo raro em tudo vosso objeito,
possa morar em vós ingratidão.

Luís Vaz de Camões

Senhora minha, se a Fortuna imiga

Senhora minha, se a Fortuna imiga,
que em minha fim com todo o Céu conspira,
os olhos meus de ver os vossos tira,
por que em mais graves casos me persiga;

comigo levo esta alma, que se obriga,
na mor pressa de mar, de fogo, de ira,
a dar-vos a memória, que suspira
só por fazer convosco eterna liga.

Nesta alma, onde a Fortuna pode pouco,
tão viva vos terei, que frio e fome
vos não possam tirar, nem vãos perigos.

Antes co som da voz, trémulo e rouco,
bradando por vós, só com vosso nome,
farei fugir os ventos e os imigos.

Luís Vaz de Camões

Sentindo-se tomada a bela esposa

Sentindo-se tomada a bela esposa
de Céfalo, no crime consentido,
para os montes fugia do marido;
e não sei se de astuta ou vergonhosa.

Porque ele, enfim, sofrendo a dor ciosa.
de amor cego e forçoso compelido,
após ela se vai como perdido,
já perdoando a culpa criminosa.

Deita-se aos pés da Ninfa endurecida,
que do cioso engano está agravada;
já lhe pede perdão, já pede a vida.

Ó força de afeição desatinada!
Que de culpa contra ele cometida,
perdão pedia à parte que é culpada!

Luís Vaz de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís Vaz de Camões

Suspiros inflamados, que cantais

Suspiros inflamados, que cantais
a tristeza com que eu vivi tão ledo!
Eu mouro e não vos levo, porque hei medo
que, ao passar do Lete, vos percais.

Escritos para sempre já ficais
onde vos mostrarão todos co dedo
como exemplo de males; que eu concedo
que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes falsas esperanças
de Amor e da Fortuna, cujos danos
alguns terão por bem-aventuranças,

dizei-lhe que os servistes muitos anos;
e que em Fortuna tudo são mudanças,
e que em Amor não há senão enganos.

Luís Vaz de Camões

Sustenta meu viver üa esperança

Sustenta meu viver üa esperança
derivada de um bem tão desejado
que, quando nela estou mais confiado,
mor dúvida me põe qualquer mudança.

E quando inda este bem na mor pujança
de seus gostos me tem mais enlevado,
me atormenta então ver eu que, alcançado
será por quem de vós não tem lembrança.

Assi que nestas redes enlaçado,
a penas dou a vida, sustentando
üa nova matéria a meu cuidado;

suspiros d' alma tristes arrancando,
dos silvos de üa pedra acompanhado,
estou matérias tristes lamentando.

Luís Vaz de Camões

Tal mostra dá de si vossa figura

Tal mostra dá de si vossa figura,
Sibela, clara luz da redondeza,
que as forças e o poder da Natureza
com sua claridade mais apura.

Quem viu üa confiança tão segura,
tão singular esmalte da beleza,
que não padeça mais, se ter defesa
contra vossa gentil vista procura?

Eu, pois, por escusar essa esquivança,
a razão sujeitei ao pensamento
que, rendida, os sentidos lhe entregaram.

Se vos ofende o meu atrevimento,
inda podeis tomar nova vingança
nas relíquias da vida, que escaparam.

Luís Vaz de Camões

Todas as almas tristes se mostravam

Todas as almas tristes se mostravam
pela piadade do Feitor divino,
onde, ante o seu aspecto benino,
o devido tributo lhe pagavam.

Meus sentidos então livres estavam
(que até i foi costume o seu destino),
quando uns olhos, de que eu não era dino,
a furto da Razão me salteavam.

A nova vista me cegou de todo;
nasceu do descostume a estranheza
da suave e angélica presença.

Pera remediar-me não há i modo?
Oh! porque fez a humana natureza
entre os nascidos tanta diferença?

Luís Vaz de Camões