De repente em meu seio caiu neve,
gelou-me a nudez do meu pranto.
Sortes negras mudas de espanto,
desse gesto longo e tão breve.
Desnecessária seria essa frieza.
Já que o meu sangue quente
dói que baste, gesto ausente.
Lúcida e incómoda é a tristeza.
E se não fosse por Deus,
Juro que teria desmaiado…
Nesse doce abraço da morte.
Que a fé que tenho é por sorte,
O braço que me tem amparado,
E me liberta dos pesadelos maus.
Olinda Ribeiro
Soneto enviado por uma leitora do blog
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Fé
Escuridão
Há dias em que caminho na escuridão,
Em que o terror se apodera de mim.
Há dias em que preciso da tua mão,
Para me encontrar, nesta rota sem fim.
Um medo crescente, fonte de tormentos,
Que me invade e, aos poucos, já domina,
Que me paralisa todos os movimentos,
Nem tremor que clama por ajuda divina.
A pouco e pouco, vou perdendo as forças,
Quase desejo parar de respirar !
Encontrar a paz… Dá-me esse motivo !
Procuro uma luz que me dê esperanças,
Procuro a razão para poder gritar
ao mundo que estou aqui ! Estou vivo !
2010 Vasco de Sousa
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Como te posso culpar, se é a mim que não perdoo ?
Como poderia alguma vez saber,
Que um novo dia tudo irá mudar ?
Deste meu caminho me iria perder,
Por um sonho que a visão me irá toldar.
Tenho medo. Vivo em constante pavor !
Sufoco no grande inferno da vida,
Intoxicado pelo meu próprio terror,
Perseguindo uma ilusão perdida.
De repente, sinto um frio de morrer !
Um sonho dourado procurei atingir,
Perdoa. Porque não me posso perdoar ?
Como será que eu me poderei perder,
Se afinal não tenho para onde ir ?
Se a mim não perdoo, como te culpar ?
2010 Vasco de Sousa
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Uma pedra no fundo do mar
Hoje, sou uma pedra no fundo do mar.
Nada ouço, nada sinto e nada vejo.
Esqueço essa dor profunda de amar,
Porque diminuí-la é o meu desejo !
Todos os sons me chegam com mais clareza,
As ondas embalam os meus pensamentos.
O tempo passa… Já nem tenho certeza…
Lá ao longe vão ficando os meus tormentos.
Porque amar será sempre também sofre,
Uma dor que é intensa e tão profunda,
Que me domina, imóvel e moribunda.
Os peixes passam, olham com indiferença,
No meu interior procuro a mudança.
Será o amor uma forma de morrer ?
2010 Vasco de Sousa
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terça-feira, 28 de setembro de 2010
Wherever I may roam
Dentro de mim, procuro o meu caminho,
Sem qualquer receio, faço-me à estrada,
Sei quem sou, para onde vou, de onde venho,
Não me desviarei desta rota traçada.
Podem chamar-me aquilo que quiserem,
Talvez nómada, ou até vagabundo,
Todos eles, o meu orgulho não ferem,
Pois o meu destino será o meu mundo.
Sou dono de mim, e daquilo que faço,
Não me revejo na maldade, na inveja,
Onde quer que vá ou onde quer que esteja.
Esta estrada é também o meu berço,
A minha casa, minha vida, meu caixão,
É o trilho de uma vida de paixão.
2010 Vasco de Sousa
Nota: Soneto inspirado numa música do grupo Metallica, com o mesmo nome.
domingo, 26 de setembro de 2010
O meu amanhecer
Sento e atiro o cansaço ao chão,
Esfregando os pés na relva com prazer,
Deito-me, rebolo até à exaustão,
Olho para o céu… O meu amanhecer !
O Sol ofusca-me qualquer pensamento,
Deixo-me ficar meio anestesiado,
Aqui não há mágoa nem qualquer tormento,
Não há razão para ficar preocupado.
A brisa passa por mim muito devagar,
O Sol reconforta-me com o seu calor,
O Cheiro desta Terra faz-me suspirar…
O mundo não parou ! Continua a girar !
A vida poderá ter um outro sabor !
Adormeço com os pássaros a palrar.
2010 Vasco de Sousa
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
A dor
Torva Babel das lágrimas, dos gritos,
Dos soluços, dos ais, dos longos brados,
A Dor galgou os mundos ignorados,
Os mais remotos, vagos infinitos.
Lembrando as religiões, lembrando os ritos,
Avassalara os povos condenados,
Pela treva, no horror, desesperados,
Na convulsão de Tântalos aflitos.
Por buzinas e trompas assoprando
As gerações vão todas proclamando
A grande Dor aos frígidos espaços...
E assim parecem, pelos tempos mudos,
Raças de Prometeus titânios, rudos,
Brutos e colossais, torcendo os braços!
Cruz e Souza
Música da morte
A musica da Morte, a nebulosa,
Estranha, imensa musica sombria,
Passa a tremer pela minh'alma e fria
Gela, fica a tremer, maravilhosa...
Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
Letes sinistro e torvo da agonia,
Recresce a lancinante sinfonia,
Sobe, numa volúpia dolorosa...
Sobe, recresce, tumultuando e amarga,
Tremenda, absurda, imponderada e larga,
De pavores e trevas alucina...
E alucinando e em trevas delirando,
Como um Ópio letal, vertiginando,
Os meus nervos, letárgica, fascina...
Cruz e Souza
Luz dolorosa
Fulgem da Luz os Viáticos serenos,
Brancas Extrema-Unções dos hostiários:
As Estrelas dos límpidos Sacrários
A nívea Lua sobre a paz dos fenos.
Há prelúdios e cânticos e trenos
Tristes, nos ares ermos, solitários...
E nos brilhos da Luz, vagos e vários,
Há dor, há luto, há convulsões, venenos...
Estranhas sensações maravilhosas
Percorrem pelos cálices das rosas,
Sensações sepulcrais de larvas frias...
Como que ocultas áspides flexíveis
Mordem da Luz os germens invisíveis
Com o tóxico das cóleras sombrias...
Cruz e Souza
Música misteriosa
Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da Lua nos clarões dormentes...
Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...
Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...
E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...
Cruz e Souza